‘Mulher é desdobrável. Eu sou’

Ana Paula Minari instiga mulheres de todas as idades a redescobrirem seus corpos e elevarem sua autoestima em aulas de dança flamenca

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Dançar é uma maneira de exercer uma liberdade individual até então desconhecida. É se deixar levar pela melodia e mexer o corpo sem pensar muito. É simplesmente viver o momento como se fosse único. Aprender a dançar pode ser difícil quando pensamos mais em nossas limitações do que em nossas capacidades. Já ensinar a dançar requer um amor maior pela dança em si e pelo outro que nem todo mundo é capaz de compreender ou colocar em prática. A bailaora e professora de dança flamenca em Londrina Ana Paula Minari o faz com maestria.

“Tem duas frases que gosto muito e que mudaram meu jeito de pensar a vida. Uma é um trecho de uma canção da cantora espanhola Maria Toledo que diz ‘La vida és un regalo de Dios’ e outra é da escritora Adélia Prado, no poema Com Licença Poética, ‘Mulher é desdobrável. Eu sou’. Acho que essas frases me definem hoje em dia.”

Ana Paula Minari em uma apresentação: “No flamenco é onde consigo me expressar melhor”. Fotos: Arquivo Pessoal

Nascida em São José dos Campos, interior de São Paulo, Ana Paula tem na dança e no ensino sua forma mais original de expressão, desde criança. “Eu sempre fiz balé desde pequena e adorava dançar. Sempre colocava discos para tocar em casa e ficava inventando coreografias malucas. Ainda na adolescência, comecei a dar aulas de balé para crianças em uma academia do meu bairro. Comecei também a trabalhar com recreação em festas e clubes e a dança também se fazia presente. Com isso ajudava minha mãe a pagar meus cursos”, conta.

“Na hora de prestar vestibular, eu estava dividida entre estudar arquitetura ou fisioterapia. Foi quando minha mãe falou: por que você não presta vestibular para dança? Você não sabe fazer outra coisa da vida mesmo”, brinca. Em 1996, ela ingressou na Faculdade de Dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde se formou em 2000.

Foi na faculdade que ela teve seu primeiro contato com a cultura flamenca. “Na minha turma da faculdade haviam dois colegas, Rogério e Karina, que bailavam flamenco. Eles eram tão apaixonados por essa arte, que era impossível não se encantar. Na época, comecei a namorar o Rogério e ele me falava: vou fazer você se apaixonar pelo flamenco. Acho que ele conseguiu.”

O namoro não durou muito, mas a paixão pelo flamenco a acompanha até hoje. Ana Paula recorda que ainda na faculdade, os colegas montaram um grupo de estudos com bailarinas e músicos da Faculdade de Música da Unicamp. “Se chamava Bailaores Gitanos. Esse grupo durou uns três anos. Naquela época, a internet não era muito desenvolvida e a busca por materiais de estudo era bem mais difícil, então buscamos professores em São Paulo, que iam até Campinas para nos dar aulas”, recorda Ana Paula.

Ela fazia todos os cursos sobre flamenco que apareciam. “Nos apresentávamos em bares, festas da universidade, desfiles. Foi um período muito bacana, tenho muita saudade.” A essa altura, o flamenco já era parte da vida dela e mesmo com o fim do grupo ela continuou a estudar. “Dentre todas as danças que aprendi e experimentei na vida, sinto que no flamenco é onde consigo me expressar melhor. A música, a história, as letras batem fundo na alma.”

Depois de formada, ela logo se mudou para Londrina, em 2001. Aqui, dava todo tipo de aula de dança para se sustentar. “Balé, jazz, contemporâneo e flamenco. Comecei aqui em uma antiga escola de dança chamada Adanac, da saudosa tia Yeda Marques Russo. Foi um período de muito aprendizado, mas eu queria mesmo trabalhar só com o flamenco”, diz.

Em 2005, ela aceitou o convite da amiga Tatiana Pimenta para dividir um espaço no Clube Canadá, onde Tatiana já trabalhava com outras danças e onde ela poderia desenvolver seu trabalho com a cultura flamenca. “Começava ali a Cia Flamenca Ana Paula Minari”, decreta.

Para ela, seu principal desafio como disseminadora da cultura flamenca em Londrina é fazer as pessoas verem o flamenco como uma cultura e não apenas como um folclore. “Fazer as pessoas entenderem que existe muito mais por trás das castanholas e dos babados. E a principal recompensa é ver as pessoas se apaixonando por essa cultura, mudando suas vidas, deixando de lado seus medos e se expressando através da dança.”

“Eu vim de um meio acadêmico do balé, em que vi, muitas vezes, meninas se estapeando para conseguir um papel de destaque e isso sempre me incomodou. Eu gostava de dançar, de me mover e achava isso repugnante. A dança é arte não competição. É um momento de compartilhar expressões e sentimentos.”

Esse modo de pensar a fez mais do que uma bailarina ou professora de dança: ela é quase uma terapeuta das alunas. Empatia e paciência são a chave para colocar mulheres dos 20 aos 80 anos para bailar sem medo de serem felizes. “Trabalhei muitos anos com crianças, tanto na dança como na recreação, e elas me faziam refletir muito sobre os objetivos da dança na vida delas. Nem todas iriam seguir a carreira, então o que eu poderia ensinar a elas dentro da dança que elas iriam levar para a vida? O que fazia elas estarem ali?”, questiona.

“O movimento, as amizades, o superar desafios, o aprender algo novo. São tantos os benefícios que a dança pode trazer. E quando comecei a trabalhar mais com adultos, vi que era exatamente a mesma coisa: as pessoas não estão ali buscando uma profissão, cada uma tem um objetivo diferente dentro daquele movimento”, analisa a professora.

“O que faço é observar e tentar direcionar o trabalho. Com os adultos, às vezes fica mais complicado porque tudo vem acompanhado de uma história de vida da pessoa, medos, frustrações, paradigmas e preconceitos que, aos poucos, vou tentando quebrar. Aos poucos você vai entendendo o jeito de cada aluna e tentando entender e atender suas necessidades”, ensina.

Desde que a pandemia fechou estabelecimentos em Londrina em março por conta do distanciamento social, Ana Paula tem dado aulas on-line. Com rapidez, ela conseguiu usufruir da tecnologia e manter 70% das alunas bailando. “A pandemia pegou todo mundo meio no susto. Comecei a observar o que meus colegas de outras cidades estavam fazendo e pesquisei alternativas caso precisasse. Estou achando o resultado ótimo. Claro que não é o ideal para uma aula de dança, mas as alunas me surpreenderam. Todas estão superando vários obstáculos, desde a própria internet para algumas, até mesmo realizar os movimentos sem depender do outro estar ao seu lado, mudança de ambiente, etc. Considero a experiência bem produtiva.”

Filha de uma professora e um advogado, sua criação teve influência direta no modo como ela encara a vida hoje, aos 43 anos, casada, mãe e dona de uma escola de dança flamenca que funciona na casa dela. “Eu tive uma infância muito feliz, sempre rodeada de muitos amigos e da família. Me lembro das brincadeiras na rua, no quintal da minha avó. Boa parte dessas brincadeiras carrego comigo até hoje em cicatrizes pelas pernas e braços. Fui muito moleca”, descreve.

Com a separação dos pais quando ela era ainda muito pequena, Ana Paula cresceu vendo a mãe trabalhar muito e se virando para não deixar nada faltar a ela e à irmã mais velha. “Uma coisa que minha mãe sempre dizia e que trago até hoje é: para tudo se dá um jeito, só não se dá jeito para a morte.”

Por causa da separação dos pais, ela sempre teve mais contato com a família materna, “que é uma família pequena e que está sempre junta. Todos os domingos eram dias de almoço na casa da vó, era dia de se divertir com os primos. Primos que são como irmãos”, declara.

Além da irmã, com quem sempre pode contar apesar da distância, Ana Paula tem uma irmã e um irmão por parte de pai. “Como crescemos longe, já que meu pai morou por muitos anos em Rondônia, agora, depois de adultos, que estamos tendo mais contato. Mas é uma relação de amizade muito bacana”, confessa.

Além da dança, Ana Paula sempre gostou de praticar esportes. “Isso preenchia boa parte do meu tempo na adolescência. Mas entre aulas e ensaios de balé na academia e jogos de handebol no colégio, sempre sobrava um tempo para os amigos. Minha casa estava sempre cheia. Eu não era de sair muito, ia muito à casa dos amigos e eles vinham em casa. Não namorei muito também. Eu acabava ficando amiga dos meninos ao invés de namorar. Um dos meus programas favoritos era ir à casa de um amigo que tinha uma bandinha de garagem e lá eu ficava horas ouvindo eles tocarem.” Ambiente muito parecido com os saraus flamencos que todo ano ela organiza em sua casa para os alunos com a ajuda do marido Marcelo, que cozinha uma paella como ninguém.

Como ela dá conta da rotina de mãe, esposa e empreendedora ela não sabe muito bem definir. “Às vezes acho que não consigo, que eu sempre podia fazer melhor. Sempre tenho a impressão que faltou algo. Mas acho que tudo é disciplina, é se organizar, ter hora e tempo para tudo. É saber abrir e fechar a porta da empresa e se permitir desligar de vez em quando”, pondera.

Um de seus maiores sonhos, além de viver da dança, era formar uma família. “Eu sempre quis ser mãe, mas tinha muito medo de não dar conta. Eu tive uma mãe incrível, que sempre se desdobrou e deu conta de tudo. Hoje eu entendo as aflições e preocupações que ela tinha, mas para mim ela sempre foi a mulher maravilha que tinha as soluções para o mundo”, avalia Ana Paula.

“Eu tinha muito medo de não conseguir ser assim. Hoje entendo que eu não preciso ser assim, que tudo que a Letícia quer é que eu esteja ali. Eu não preciso ser uma super mulher para ela gostar de mim, basta eu ser. Mas claro que isso não me isenta de sempre tentar fazer o melhor para ela e por ela. Ela é meu mundo”, resume a bailaora, que nas horas vagas gosta de brincar com a filha e adora jogos de tabuleiro.

Ana Paula com o marido e a filha

“Gosto de filmes de aventuras fantásticas e viajar. Para ler, gosto de biografias. Aprendo muito com as histórias de vida das outras pessoas.” Um sonho a realizar é conhecer o mundo: “Meu sonho realizado é de ter minha família linda, unida, saudável e feliz. Meus amigos à minha volta e ter meu trabalho reconhecido”.

Ajudando diariamente alunas de diferentes idades e histórias de vida a se redescobrirem como mulheres capazes de qualquer coisa que desejarem, Ana Paula diz que apenas retribui o bem que sempre recebeu em sua trajetória. “Muita gente me ajudou pela vida, dos mais diferentes modos. Na vida pessoal, na carreira, tive muitos anjos na minha vida. O que faço pelos outros é só retribuir o que a vida me deu. Procuro sempre aprender com todas as situações da vida e acho que o ‘para tudo se dá jeito’ sempre ecoa quando as coisas parecem ruins. Tudo fica mais leve se você tenta ver o lado bom”, finaliza.

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