‘Sou uma sobrevivente’

Chris Lemes sofreu as violências de ser travesti na época da disseminação da Aids mas nunca desistiu de lutar para ser respeitada por ser quem é

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Faço versos pro palhaço que na vida já foi tudo. Foi poeta, foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo.” Os versos da canção “O Circo”, de Nara Leão, chegaram aos ouvidos de Christiane Lemes na voz de Elis Regina, a Pimentinha, apelido que tomou para si ao longo da vida atribulada como ativista contra a transfobia em Londrina.

Aos 57 anos, “bem vividos” como faz questão de pontuar, Chris é mais que tudo uma sobrevivente. Do preconceito, da violência, da doença, da fome, das ruas. E ensina aos mais jovens sobre amor próprio e empatia desde muito cedo.

Chris Lemes em foto de arquivo pessoal

Filha de uma costureira e um funcionário de armazém, descobriu-se transgênero na infância. “A gente não escolhe, a gente nasce diferente. E por isso a gente não escolhe ser militante, a gente já nasce militante”, garante Chris. “A gente esbarra em tanta coisa na vida que só pensa em se defender. Em defender o direito de ser quem sou que tiraram de mim com a transfobia. Nós não existíamos, não éramos ninguém, então tudo isso me repreendeu por um tempo”, completa.

Sua transformação teve início na adolescência, em 1984, o que facilitou a aceitação da mãe, dos dois irmãos, da irmã e dos sobrinhos. “A família se sentia agredida quando eu me justificava um menininho alegre. Depois que eu coloquei roupa de mulher e virei Christiane Lemes eles me olharam totalmente diferente”, conta.

Uma conquista importante, já que a infância foi tão dura que Chris foi obrigada a deixar os estudos ainda no ensino fundamental por conta das provocações e violência que sofria dos colegas do sexo masculino. “Não aguentei a pressão dos meninos, que queriam abusar. Chegava em casa e apanhava do pai porque era afeminado. ‘Mariquinha’ era como ele me chamava.” Sem aceitar a filha, o pai chegou a mandá-la a um pai de santo.

“Minha transformação foi uma fase em que eu via outras travestis lá fora sofrendo transfobia e eu dentro do meu ambiente familiar não sofrendo, sempre aceita por mãe, irmão, sobrinho, sobrinho neto. Sempre criei sobrinhos, sobrinhos netos, que hoje me amam como tia.” Nhanhá é o apelido carinhoso pelo qual os sobrinhos ainda hoje chamam a tia. Segundo ela, a palavra vem do candomblé e significa pai ou mãe querido.

Mas nem todo apoio familiar foi capaz de deixá-la fora das ruas. Quando a mãe morreu, Chris ficou sozinha. Pouco antes de descobrir o balé, com a ajuda de amigos que fez nas ruas, e se apresentar em espetáculos até no Teatro Outro Verde, Chris passou fome e chegou a dormir no bosque central. Também precisou se prostituir para conseguir sustento. “Em 1981, fui bailarino no Londrina Country Club onde dancei vários bailados. A gente pintava o rosto, entrava no palco do Ouro Verde todo maquiado e, na época, era uma agressão para a sociedade.”

Chris em um dos muitos Carnavais em Londrina

Como as portas se fechavam para a população trans no início dos anos 1980, Chris decidiu procurar trabalho em salões de beleza. “Ou era a rua ou um salão de beleza, então pensei: para não chegar à rua vou tentar mais uma vez. E sempre lutando pelos direitos que a lei dizia que a gente tinha mas que tiravam da gente.” Para Chris, hoje, a sociedade está mais esclarecida sobre transfobia do que quando ela se trnaformou, mas a comunidade ainda precisa lutar muito para fazer valer os direitos conquistados ao longos dos anos, como o uso do nome social e a mudança do gênero nos documentos de identidade.

A disseminação mundial do vírus HIV nos anos 1980, principalmente entre a população LGBT, foi um divisor de águas na vida de Christiane. O preconceito cresceu até mesmo nos locais onde ainda havia trabalho, como os bares. “Eles colocaram a culpa da doença em nós. Nos bares, não serviam mais bebidas para a gente em copos e sim em saquinhos, porque os clientes tinham medo do vírus”, lembra.

“De 1981 a 1986 me transformo. Em 1981,passamos pela batalha da Aids. Foi um atestado de morte que a gente recebeu na época. O Brasil fechou todas as portas para a gente. Era o auge da Roberta Close, Rogéria, mas esse atestado de morte fechou todas as portas para a gente no campo de trabalho. Até na prostituição. Então a gente teve que ir embora do Brasil para trabalhar. Fui para a Europa com uma mão na frente e outra atrás em 1986. Foi terrível. Saí com uma passagem ganha de uma grande amiga. Não tinha dinheiro para comprar passagem nem para levar para Europa. Meus primeiros dois anos fora do Brasil foram em Paris. Outra vida, outra cultura. Com outras brasileiras por perto, você aprende rapidinho a se comunicar. Passeei pela França, Itália, Suíça sem saber falar nem o português correto”, conta Chris.

Entre idas e vindas, ela passou quatro temporadas na Europa, numa delas escolheu a Espanha, onde morou por mais tempo. Lá trabalhou como cabeleireira e também se prostituiu para conseguir se sustentar. “Tinha uma aceitação na Espanha, eu era vista como gente e não como bicho. Tinha uma vida digna, era respeitada. Naquela época, a gente era vaiado quando passava no Calçadão, hoje, a trans passa ali de cabeça erguida. Quantas vezes a gente não saiu corrida no Calçadão desses homofóbicos, transfóbicos que batiam na gente para a gente virar homem. Não, eu vou ser o que eu quero”, declara.

Ela recorda das inúmeras vezes em que as travestis eram presas e torturadas por policiais da cidade enquanto trabalhavam na noite. “Nos enchiam de graxa e depois nos davam um banho de água gelada. E a gente não podia denunciar a violência porque eles diziam que a gente provocou. Então a gente se calava. Aprendemos a aceitar a rejeição e engolir.”

Como sobrevivente de uma população com uma expectativa de vida de 35 anos, Chris entendeu a importância da militância contínua que garante direitos aos mais jovens. Ela também continua lutando por melhores condições de vida para as travestis mais velhas que, diferente dela, foram abandonadas pelas famílias e estão envelhecendo em locais definidos por ela como “depósitos de humanos”. “Essa população que trabalhou naquela época, por quem a gente lutou, não tem onde morar, não tem família, está jogada num depósito de humanos, ninguém olha por elas. Mas o vírus nunca foi restrito às travestis e gays, a contaminação foi geral.”

Ela acredita que a mídia facilitou a aceitação dos filhos transgêneros pelas famílias, que se descobrem cada vez mais cedo. “Até então era na casa do vizinho. Hoje, várias pessoas se abrem mais cedo, quase toda população trans se assume trans homem e trans mulher. Hoje já vemos garotinho com 15 anos virando mulher”, avalia, completando que ainda assim a luta permanece.

“Hoje tem nome social, tem mais proteção. Eu corri atrás disso, dei a cara a tapa para conquistar isso. Costumo brincar que carregamos as pedras, fizemos o cimento, erguemos a casa e hoje estamos só pendurando os quadrinhos.”

Com casa própria e uma situação financeira estável, há tempos Chris não precisa se prostituir para sobreviver. Em Paris, ela fez curso de confeitaria e hoje usa os dons de boleira para ganhar dinheiro. Também se apoia no crochê, que gosta de praticar desde pequena, para complementar a renda da casa, que sempre esteve aberta para os movimentos LGBT de Londrina.

Em 2001, ajudou a fundar a instituição Adé-Fidan (que em nagô significa homem de fino trato). Foram recebidos mais de R$ 60 mil por ano em recursos da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Ministério da Saúde e programas estadual e municipal de DST/Aids para ações de prevenção, autoestima e profissionalização de mais de 3 mil gays, garotos de programa e travestis de Londrina nos projetos Casa de Vivência Sara Santana e Boa Noite Cidadão.

É com admiração que Chris lembra do papel de Sara Santana para a comunidade LGBT local. “Foi pioneira do movimento trans em Londrina, mas era portadora do HIV. Era uma mãezona. Ela dizia: ‘Você não tem pai, não tem mãe, então eu abraço você’. Fazia isso inclusive com adolescentes”, recorda a boleira, contando que Sara, posta em “prisão perpétua domiciliar” por vadiagem, decidiu recolher a população trans da cidada na própria casa e iniciar vários movimentos que hoje convergem no ElityTrans.

“O coletivo ElityTrans foi criado também aqui na minha casa. Eu, Mel Campus, Joice Karoline e Luany Vasconcelos. Notamos que acontecia umas novas políticas públicas para as pessoas trans desde o fechamento do Adé Fidan. Eu trouxe o direito do nome social nas escolas e na saúde, e logo o direito da retificação do nome social para o nome civil no documento.”

Com uma sobrevida de 20 anos, já que pensava que não viveria até os 37 anos, Chris segue a vida militando, sem muito tempo para o amor. “Hoje tenho 57 anos bem vividos. Sobre amor, vou falar a verdade, fui uma mulher de fechar negócios e nunca me iludir com os homens e sim com o dinheiro dos homens.” 

Talvez “O Circo” seja mesmo a canção que resuma a vida de Christiane Lemes: “Corre, corre, minha gente, que é preciso ser esperto. Quem quiser que vá na frente, vê melhor quem vê de perto”.

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