Em Dia Nacional de Luta, população de rua requer acesso a direitos básicos

“A pessoa não nasceu na rua, ela veio de uma família e tem o direito sim de exercer suas funções como cidadão”, diz um dos coordenadores do MNPR em Londrina

Cecília França, com colaboração de Nelson Bortolin

Foto em destaque: Sara Gladys Toninato

Era para acontecer um ato ali mesmo, na rua, mas o tempo chuvoso impediu que a população de rua de Londrina se reunisse fisicamente em seu Dia Nacional de Luta. O ato ainda vai acontecer, assim que o Sol voltar a brilhar, e as reivindicações do movimento estão bem claras. As pessoas em situação de rua ainda lutam por acessos básicos, como a água, banheiros, alimentação regular, políticas de moradia.

“No momento, as principais dificuldades em Londrina são: higiene (água potável, acesso a sabão, álcool gel), habitação, políticas públicas que dêem efeitos positivos não só para uma pequena porcentagem da população em situação de rua”, afirma André Luís Barbosa, um dos coordenadores do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) na cidade.

“Também precisamos de uma concretização maior sobre alimentação, que os direitos de ir e vir sejam respeitados e que fatos isolados não sejam usados como pretexto para sencionalismo e generalização de um todo”, completa.

A imagem da população de rua perante sociedade é uma preocupação do movimento, pois ao não serem considerados cidadãs, estas pessoas ficam mais expostas ao desrespeito e à violência. Barbosa acredita que falta informação sobre a história das pessoas que vivem na rua.

“A pessoa não nasceu na rua, não nasceu ali debaixo do pontilhão ou no semáforo pedindo moedinhas. Ela veio de uma família. Por N motivos ela veio parar na rua, então ela tem o direito sim de exercer suas funções como cidadão”.

Pessoa abrigada na Rodoviária de Londrina. Foto: Sara Gladys Toninato

Leonardo Aparecido Gomes, outro coordenador local do MNPR em Londrina, acrescenta: “As pessoas que moram na rua são invizibilizadas pela sociedade. Só são lembradas pela política em época de votação. Mas as pessoas não são invisíveis, são seres humanos igual qualquer outro”.

Para Gomes, vagas em abrigos e alimentação regular são as principais pautas do movimento hoje, além de um trabalho conjunto mais efetivo entre Assistência Social e Saúde.

De acordo com a última pesquisa Pop Rua, divulgada em 2019, Londrina tem cerca de mil pessoas vivendo na rua. Recentemente, cerca de 40 delas foram retiradas da Rodoviária, onde se abrigavam e tinham acesso a banheiro e água com facilidade. Muitas delas, agora, ocupam a frente do Centro Pop.

Pandemia e ressocialização

Em parceria com a Arquidiocese, o município criou três isolamentos para receber a população de rua durante a pandemia do novo Coronavírus. Os três espaços estão em funcionamento desde março e têm tido alta aceitação entre os acolhidos. A estrutura física, de propriedade da Igreja Católica, é considerada de qualidade e possibilita um acolhimento mais confortável, com apenas duas pessoas por quarto, por exemplo. Tudo isso amplia as possibilidades de ressocialização.

“Eu tenho bastante acesso ao isolamento masculino e também me informo bastante da parte dos idosos. Temos uma ótima aceitação dos acolhidos, um nível de rejeição super baixo, nada que chegue perto ao nível de rejeição aos atuais abrigos, e uma porcentagem de ressocialização de até 70%, muito expressiva”, avalia André Barbosa.

Para ele, o modelo poderia ser replicado para os abrigos já existentes na cidade.

“Talvez os isolamentos tragam uma nova visão sobre as metodologias que devem ser empregadas com a população em situação de rua”, espera.

De acordo com a secretária de assistência social, Jacqueline Micali, esse formato está sendo estudado pelo município. Segundo ela novos editais estão prestes a ser lançados e foram montados a partir de estudos de perfil dos acolhidos.

“A partir da parceria foi feito um estudo de perfil e a partir dele vão ser lançados os editais para que essas pessoas continuem sendo atendidas, visando a superação de rua. No sentido do modelo, a diferença é que tem nesses locais uma participação mais ativa da saúde. Estamos em discussão para a implantação desses novos modelos para que atinja, também, os outros acolhimentos”, informa.

Luta e luto

O dia 19 de agosto foi escolhido como Dia Nacional de Luta da População de Rua por lembrar o Massacre da Praça da Sé, em São Paulo, em 2004, quando sete pessoas que ali dormiam foram assassinadas e outras oito ficaram feridas em uma sequência de ataques violentos.

“Dia 19 devemos lembrar em respeito àqueles que foram mortos, para mandar uma mensagem que este ato nunca mais se repita”, diz André Barbosa. Em Londrina o Movimento também presta homenagens a seus mortos. Apenas este ano, ao menos 12 pessoas que viviam nas ruas morreram na cidade, a maioria de forma violenta.

3 comentários em “Em Dia Nacional de Luta, população de rua requer acesso a direitos básicos

  1. Parabéns por esse site e pela matéria. Belo texto, depoimentos e fotos!
    Temos que relembrar esse dia o ano todo, denunciar a violência e lutar pelos direitos e necessidades da pop em situação de rua!
    Luta e Luto! 💪🏽💪🏻💪🏽💪🏻💪🏽💪🏻💪🏽💪🏻

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