Unidos contra a fome

Nesta quarta-feira (12), mais mil Marmitas da Terra foram distribuídas em Curitiba e em Campo Magro pelo MST

Olga Leiria, de Curitiba

Às 7 horas da manhã desta quarta-feira (12), o cheiro da lenha do fogão se misturava ao da cebola refogada na cozinha do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), em Curitiba. As funções foram distribuídas entre 25 voluntários de várias entidades como Marcha Mundial das Mulheres (MMM), 1 milhão de 1 real, Pastoral do Imigrante, Enconttra – Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra, do curso de Geografia da UFPR, e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A produção foi de mil Marmitas da Terra, que foram entregues em praças da cidade e para a ocupação Nova Esperança em Campo Magro.

O trabalho começa na terça-feira com a preparação dos legumes e o tempero das carnes. Tudo fica pronto a partir das 11 horas para a primeira entrega. Para o cardápio desta semana, feijão, arroz, carne de porco assada, batata salsa, repolho refogado, mandioca, berinjela, abobrinha e brócolis.

Os alimentos vêm de acampamentos e assentamentos da reforma agrária e da agricultura familiar. Devido aos custos do transporte, a maioria dos alimentos vem de perto, do assentamento na cidade da Lapa. Arroz, feijão, legumes e mandioca é o que não falta nas marmitas. “Nosso objetivo é matar a fome”, diz Adriana de Oliveira, 44 anos, historiadora e coordenadora estadual do MST no Paraná há 20 anos.

A iniciativa é conjunta do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR/PopRua), ONG Mãos Invisíveis e do Sindicato dos Correios. A parceria inicial tinha como objetivo fazer marmitas e entregá-las no dia 2 de maio numa homenagem ao militante Antônio Tavares, morto em um confronto com a polícia militar nesta data, há 20 anos.

“O trabalho foi crescendo e observamos que não poderíamos parar no meio da pandemia. Mudamos para a sede da Cefuria e estamos aqui toda quarta-feira, totalizando hoje 10.500 refeições entregues desde o início do projeto em abril deste ano”, comenta Oliveira. As doações irão até dezembro.

A historiadora fica sem jeito quando fala sobre seu trabalho: ” A sensação de ajudar o próximo é muito gratificante, muito boa. Tenho a certeza que a população não vai receber só comida, e sim amor”.

VOLUNTÁRIOS

Lúcia Bamberg, 48, autônoma, participante da Pastoral do Imigrante da Arquidiocese de Curitiba ajudou pela primeira vez nesta quarta. Ficou sabendo através de uma amiga que já participa do movimento. “Estamos junto nisso, coisa boa tem que participar. Experiência nova em um trabalho bonito e sério é muito bom, Na próxima semana voltarei”, diz Bamberg radiante.

Sem parar de mexer o repolho na caçarola, Marcos Antônio Pereira, 32, geógrafo e integrante do Movimento Sem Terra há 24 anos, participa do projeto das Marmitas da Terra desde o início. “É incrível e muito gratificante ajudar o próximo, ainda mais sabendo o que é não ter comida na hora da refeição. Também vim da pobreza. Ser solidário é necessário”, relata Pereira, que foi criado no Assentamento 8 de Abril, antiga fazenda 7 mil, em Jardim Alegre (Norte do Paraná).

Já a estudante Letícia Pille, 21, está na sua terceira semana de voluntária. Na praça, ela fornece álcool em gel para as pessoas que vão pegar as marmitas “Não faço mais que minha obrigação, tenho tempo livre, sou jovem, tenho menos risco de ficar doente. O importante é ajudar. “Ninguém deveria passar fome.”

ENTREGA

Uma fila já estava formada às 13 horas, quando o carro do projeto chegou na praça Rui Barbosa na parte central da capital paranaense. Nela, estavam homens e mulheres em situação vulnerável, desempregados, pessoas empregadas em horário de almoço, aposentados, entregadores de aplicativo. Em menos de meia hora, foram entregues 300 marmitas.

“Dá hora o racha.” Assim define Bruno Kailan, 28, entregador de aplicativo, que sempre pega a marmita para almoçar. “Com o dinheiro que sobra, coloco o gás para poder trabalhar mais.” Ele trabalha 10 horas por dia, levando comida para outras pessoas.

Kailan coloca sua quentinha na caixa de isopor, dividindo espaço com a marmita do aplicativo. Só iria almoçar na sua próxima entrega.

Marmitas da Terra também vão de aplicativo, mas por um ótimo motivo: matar a fome do entregador.

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