‘O melhor clownch do mundo…na opinião dele’

Palhaço Ritalino usa a arte do riso como forma de ampliar valores humanos e conquista a web com conselhos, músicas e talk shows divertidos

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira. Adoça a vida com quitutes e palavras

Um palhaço muito acelerado que pintado de piadas tenta dialogar com o mundo usando a boca, o corpo e o coração. Adivinhou quem é? É o clownch londrinense Ritalino, o palhaço que depois de estrear nos palcos com “O melhor show do mundo…na minha opinião” e mostrar seus dotes musicais no espetáculo “In concertina”, reinventou-se nas plataformas digitais para levar conselhos e risadas aos seguidores durante a quarentena.

E por clownch se entende “profissional que usa de sua experiência e técnica para te auxiliar a ser alguém melhor partindo do ponto de vista do clown. Pra você não ficar sendo essa pessoa aí que você é, miseravi”, nas palavras do mesmo. Ou, a melhor versão de coach que você poderia querer para te ensinar a rir das adversidades da vida enquanto precisa ficar em casa.

Mas quem é a mente por trás da fantasia de clownch? É o paulistano Tiago Marques da Silva, 32 anos, que apesar de ter jogado muito futebol quando pequeno, logo cedo descobriu-se apaixonado por fazer as pessoas rirem. “Minha disposição para as artes vem desde o pré. Na escola, a professora passava uma atividade para as outras crianças e me pegava pela mão para ir contar piadas para as outras professoras, para a diretora, secretária. Lembro que tentava representar as cenas que via em programas cômicos.”

Mais novo de três irmãos, Tiago cresceu numa região perigosa de São Paulo, onde a família foi assaltada inúmeras vezes. Motivo que os fez mudar para o interior, onde ele viveu dos 11 aos 22 anos. “Foi apresentando um trabalho escolar de forma teatral (ele falou sobre Galileu em primeira pessoa) que a professora responsável por um grupo de teatro da cidade me convidou para atuar e nunca mais parei”, conta Tiago.

Fotos: Arquivo Pessoal

A vontade de ser palhaço também sempre existiu. “Lembro de ir ao circo com meu pai e ver palhaços, meus olhos brilhavam nesses dias. Lembro até do bordão do palhaço que vi aos cinco anos de idade”, diz. “Sempre foi uma paixão fazer os outros rirem e ao fazer teatro e assistir teatro percebi o quanto poderia fazer disso minha profissão”, justifica.

Tiago se profissionalizou no teatro em 2008 e em 2009 começou a atuar como palhaço. No mesmo ano, mudou-se para Londrina para cursar Artes Cênicas, na UEL (Universidade Estadual de Londrina). “Aqui vi e atuei com diversos palhaços e palhaças, sempre buscando seguir na área da palhaçaria. Participei de trabalhos, oficinas e espetáculos e  meu palhaço teve outros nomes até que encontrei essa figura e nomenclatura que me satisfez.” Assim nasceu o Palhaço Ritalino.

“Sigo pesquisando, estudando, sem nunca parar. Atuando e buscando mais conhecimento, traçando novos objetivos e correndo atrás. Me formei em Artes Cênicas em 2012, fiz dois anos de cursos na área de circo e estive em residência artística em Barcelona em 2017”, enumera Tiago. Para ele, a figura do palhaço sempre traz muito do próprio artista.

“Você é o principal ingrediente do seu palhaço sempre. Então, tudo que fiz, faço e o que ainda farei me conduzem ao que sou nesse trabalho.” Tiago acha difícil explicar como se deu a criação do personagem Ritalino, pois foram mais de dez anos de aprimoramento e uso de diferentes metodologias de trabalho.

Tiago Marques da Silva, que dá vida ao palhaço Ritalino

“A criação do palhaço passou por descobrir e entender, por meio de muito trabalho e experimentação, o que é risível, o que em mim é rísivel, o que tenho que posso usar e como usar.”

Em 2013, Ritalino ganhou seu primeiro solo: “O Melhor Show do Mundo…na minha opinião“. Nesse trabalho, o palhaço é um pipoqueiro que, na falta de artistas, sobe ao palco para entreter clientes e continuar vendendo pipocas. Já no espetáculo “In Concertina”, Ritalino é um músico muito atrapalhado que tenta, em vão, fazer um grande show musical.

“Ele consegue tocar com ternura a plateia por meio da canção tema que executa em sua concertina em meio a um festival de trapalhadas”, descreve Tiago. Segundo ele, em ambos os shows, o que mais importa é como o trabalho foi feito. “Todos os motivos que  levam aquela figura a estar ali são meras desculpas para mostrar o principal: a humanidade, com seus erros e acertos, suas ternuras e pequenezes, seu amor e seu ridículo”, declara.
 
Os dois espetáculos seguiam em repertório até a pandemia fechar os teatros. “Quando puder voltar a apresentar, além desses dois trabalhos, teremos um novo solo, um espetáculo em parceria com outro artista e ainda um espetáculo musical”, prevê Tiago, que apostou nas redes sociais para acrescentar mais uma qualidade ao repertório do Palhaço Ritalino, que tornou-se clownch para continuar dividindo sorrisos e, por que não, conselhos em meio a tanta incerteza.

“Não acho que a internet seja caminho natural pois penso que artes cênicas são artes do encontro: presencial, ao vivo. Mas é a forma possível de comunicação hoje. Respeito muito os profissionais que não estão produzindo para web, pois ali é outro local, outra plataforma, que no entendimento de muita
gente descaracteriza essa arte.  No meu caso, eu entendi que meu fazer caberia ali, eu gostaria de colaborar com uma atmosfera mais leve nesse período tão difícil”, comenta Tiago.

“Quis continuar dialogando com o público e também dando vazão à minha criatividade. Por isso comecei a produzir para web. Pretendo continuar produzindo para web mesmo quando puder retornar aos palcos. Não sei como serão as apresentações no futuro, estou muito receoso, porém ansioso para este momento.”

Uma das qualidades do conteúdo das piadas do Ritalino é fazer rir mas não a qualquer preço. “Sempre tento nos meus espetáculos e vídeos trazer o riso. Um riso que ridicularize apenas a mim, mas que cause riso a todos”, explica Tiago, reforçando que o riso “é algo que nos faz mais saudáveis, nos faz felizes, então sempre tento valorizar o riso, o brincar, o divertir e, no meu delírio, até vislumbrar possibilidades diferentes de mundo”.

Tiago se surpreende com a identificação das crianças com a mensagem do Ritalino. “Muitas vezes tento fazer um conteúdo adulto, mas com censura livre. Tenho me divertido com os diferentes conteúdos. Vejo que cada conteúdo agrada a diferentes públicos.”

Ele confessa que a rotina de trabalho de um palhaço é mais cansativa do que parece e que às vezes se pega organizando a agenda do Ritalino até antes de dormir:

“Trabalho de segunda a sexta dentro do escritório, com preparo de materiais, escrita de projetos, pesquisa e venda direta dos trabalhos. Após a venda, tem todo o planejamento da viagem, que tipo de adaptação será necessário ao espetáculo, balanços e pagamentos. Na semana que não temos apresentações se trabalha no mínimo de segunda a sexta, mas na semana que temos apresentações se trabalha todos os dias”, diz Tiago.

Ele elenca outras demandas como ensaios, manutenções em cenários, figurinos e adereços e criação de novos trabalhos, que precisam de tempo de pesquisa, ensaio e experimentações.

Além da sua agenda própria, o Ritalino também atua no Plantão Sorriso, grupo de palhaços que visita alas pediátricas em Londrina. “Como as vendas diretas e viagens não têm acontecido, temos desenvolvido roteiro, produção de vídeos, filmagens, edições para o conteúdo da web. Os artistas trabalham muito para apresentar o melhor trabalho artístico possível ao público, que vê apenas a pontinha do iceberg. Toda parte do iceberg que fica para baixo da água é nosso trabalho cotidiano.”

Se o Ritalino é um palhaço acelerado, o Tiago “é um ranzinza gente fina esportista, brincalhão e aficcionado por palhaçaria”. Além de fazer rir, ele gosta do que todo mundo gosta: comer, praticar esportes, ver filmes, passear. “Viajo mais a trabalho que a lazer, mas tento sempre aproveitar a estada em cada local e conhecer um pouco.”

Ele se considera muito feliz por já ter realizado alguns sonhos, como o de se formar em uma universidade pública e viver da arte. “Ele se concretiza todos os dias ao pagar minhas contas.”
Outro sonho era participar de grandes eventos de sua área de atuação, que ele também concretizou.

A palhaçaria já me levou mais longe do que ousei pensar e aprendo com o palhaço a humildade de que sou só um atrapalhado tropeçando por ai.” “Um sonho que tinha também era formar uma família com alguém que amo, isso ocorreu em 2014. Somos só um casal, sem filhos ainda, mas já é uma
família”, orgulha-se.

“A arte é importante para a formação do ser humano, do cidadão e cidadã, para o ser pensante. A arte nos abre a mente, nos permite ver com outros olhos, de outros ângulos. A arte nos faz questionar o que achávamos que sabíamos, nos faz parar e refletir, nos deleita, nos faz pensar”, analisa Tiago.

Na opinião dele, “no fazer político que existe em nosso país, só se tomam medidas (atrasadas) de combate imediato: pegou fogo, apaga; tem violência, faz cadeia. Falta enxergar a potência e o impacto da arte e da educação como ampliadores de valores humanos, o que permite que saúde, economia,
segurança também tenham melhora”.

“Penso que para melhorar esse cenário, apenas com trabalho conjunto de inúmeras pessoas, mas sobretudo através de políticas públicas que instaurem a possibilidade de arte nos mais variados setores, locais e camadas sociais. Sou um dos artistas que tem sofrido durante a pandemia, respeitando a quarentena e apartado do trabalho remunerado, não vendo iniciativas do poder público em garantir a sobrevivência dos artistas e demais profissionais do entretenimento”, lamenta o artista.

Fazer algo bem feito sempre requer mais trabalho. Se tudo está ruim e os governantes não valorizam a arte, isso só prova o quanto a arte faz falta na vida dessa pessoa”, conclui Tiago, para quem a arte sempre salva. “Sem filmes, livros, música, dança como estaríamos? A arte é entretenimento, é profissão, é deleite e até terapia.”

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