‘Desobedecer para fazer o melhor’

Empresário aposta no intraempreendedorismo e premia funcionários até por erros que podem levar a inovações e melhorias no processo de produção

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Erros são relíquias. Pelo menos para o engenheiro civil Cláudio Zini, 71 anos, diretor-presidente de uma das maiores fábricas de portas do Brasil, com mais de 80 anos de história em União da Vitória, região sul do Paraná. Há 40 anos no comando da empresa, Zini é reconhecido na cidade e pelos colaboradores por sua política de incentivos: ele costuma pagar por inovações propostas pelos funcionários, ainda que as ideias não resultem em sucesso imediato.

Por meio da metodologia do intraempreendedorismo, em 2019 foram pagos aos colaboradores mais de R$ 75 mil relativos a 84 novas ideias implementadas. A expectativa é que o total pago este ano chegue a R$ 100 mil. “Criamos um bônus sobre inovações e melhorias, que é o resultado dos primeiros cinco dias da economia efetivada, e esse montante vai para o bolso de quem teve a ideia e a executou”, cita.

Claudio Zini, um incentivador da ‘desobediência’. Foto: Divulgação

“Já vivemos a quarta revolução industrial, com tudo mudando a toda hora. E uma empresa só sobreviverá se inovar. E a inovação só é possível se o erro for permitido. O erro se torna mais barato quando se erra rápido e se torna muito caro quando ficamos tentando evitá-lo”, justifica Zini, para quem os erros de inovação são bons erros. “Se não estamos errando no inovar é porque não estamos tentando o suficiente.”

Criado em Bituruna, colônia italiana no interior do Paraná, Zini conta que desde criança sua mãe dizia que ele seria engenheiro. “Eu gostava muito de construir estradas e pontes para meus carrinhos. E lembro que quando ela me chamava para a jantar eu sempre dizia: ‘Mas bem agora que eu terminei de fazer a ponte? Bem agora que eu ia começar a brincar’. Na verdade, enquanto estava construindo, já estava brincando.” Ele lembra que sua veia empreendedora deu as caras logo aos sete anos de idade, quando montou um time de futebol na cidade e liderou a equipe para arrecadar dinheiro e pagar um churrasco.

Formado pela Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), bem jovem, aos 30 anos, tornou-se líder da empresa familiar que começou como uma marcenaria e serraria de toras de madeira, “fazendo um pouco de tudo”, em 1939. A companhia conta, hoje, com mais de 700 colaboradores, todos envolvidos em um processo de gestão inovador. Com florestas plantadas e um parque industrial completo com 102 mil metros quadrados construídos, Zini controla todas as etapas da produção de portas.

“Foi fundada pelos irmãos da minha mãe e mais alguns parentes, totalizando nova famílias. Depois passou também a fazer camas de mola, janelas e portas de madeira nativa. Mudou para folhas de portas de compensado sendo totalmente ecológica. “Com o passar dos anos fomos inovando e aperfeiçoando os produtos com a fabricação de porta pronta. Hoje, vendemos porta pronta, abrindo e fechando, como gosto de enfatizar, diretamente ao consumidor final com 40 pontos de venda, e-commerce, showrooms”, conta o empresário, que tem como estratégia competitiva o investimento em pessoas e produtos.

“Temos que nos reinventar o tempo todo. Imagina se estivéssemos ainda fazendo camas de mola? Quem iria dormir nelas? E uma empresa vai à falência nos dias de hoje não por cometer erros em inovação, mas por fazer a mesma coisa, muito certinha, por um tempo longo demais”, avalia.

Reinventar-se, segundo Zini, passa sempre por recompensar o colaborador. Ele implementou na empresa ações intraempreendedoras com foco no conhecimento. “A educação é extremamente importante, pois estamos o tempo todo em formação. Antes aprendíamos para poder trabalhar, hoje a carreira profissional é uma jornada de aprendizado”, avalia.

Faz parte desta jornada o projeto “ganhe dinheiro aprendendo”, no qual o colaborador é recompensado ao entregar a resenha de um livro ou filme indicado pela empresa. No final do mês, a premiação pode acrescentar até R$ 60 ao vale alimentação do funcionário. 

Todo dia, Zini toma café da manhã com os colaboradores do escritório e café da tarde com o trabalhadores da fábrica. E durante o encontro, são lançados desafios aos funcionários. Aquele que se arriscar a dar sugestões recebe incentivos de R$ 20 para cada proposta feita.

Entre as demandas estão citar e interpretar três valores da empresa, apontar algo que foi mal executado e deve ser refeito, levantar hipóteses impossíveis de realizar mas que incrementariam o processo de trabalho ou sugerir melhorias para aumentar a produtividade. Resumindo: liberdade para opinar com sabedoria e ainda receber por isso.

Outra forma de ganhar R$ 20 a mais no vale alimentação é “compartilhar uma coisa boa”, ação na qual o trabalhador cita duas situações que trouxeram melhorias para a empresa ou para o setorem que trabalha. “Colaboradores que citarem dois erros que ocorreram na empresa ou no setor que trabalham, assim como coisas boas, também são recompensados”, completa Zini.

Também faz parte desta ação assistir e escrever uma resenha sobre um programa de televisão que trata de motivação e sucesso, produzido por um parceiro da empresa, além de organizar palestras, quinzenalmente.

O conteúdo da palestra é produzido pelos próprios colaboradores, que também escolhem o tema. Cada palestrante recebe R$ 50 por evento e cada colaborador que assistir à palestra do colega ganha R$ 10 no vale alimentação. Familiares de colaboradores que assistirem a apresentação também ganham. O total arrecadado com a venda de ingressos, que têm valor simbólico, é destinado a uma instituição de caridade escolhida pelo palestrante.

Zini cita ainda que, mensalmente, a empresa realiza um evento no Cine Teatro Ópera, em Porto União (SC), cidade vizinha a União da Vitória, no qual a instituição de caridade escolhida pelo palestrante recebe 10% do valor arrecadado com os ingressos e se o colaborador vender dez ingressos, fica com 30% do valor.

Toda essa política de investimento no funcionário – e por consequência na comunidade – foi inspirada numa viagem de trabalho de Zini ao Japão. “Os japoneses, após a Segunda Guerra Mundial, agarraram com unhas e dentes os conceitos de gestão participativa, no qual o grande capital são as pessoas, com as decisões partindo do nível de piso de fábrica, de baixo para cima, na qual quem mais entende do trabalho é quem mais está perto dele”, declara.

Ele relembra que, na volta da viagem, um consultor de RH pediu que ele colocasse os valores da empresa no papel, para deixar bem claro aos colaboradores. “Numa tarde, com muita inspiração, fiz os dez mandamentos, que hoje chamamos de valores. Para mim, o valor mais forte é o ‘desobedecer para fazer o melhor’. Sou um incentivador da desobediência, pois é importante ter na empresa pessoas questionadoras. Nós aqui incentivamos tanto os erros no inovar que até pagamos por eles, enquanto no mundo, o erro no inovar ainda não é socialmente aceito.”

Para enfrentar as dificuldades neste momento de pandemia, Zini escolheu o diálogo. “É claro que tem o lado da sobrevivência, mas o que devemos fazer, nesse momento, é nos cuidarmos. Distanciamento seguro, máscara e higiene redobrada. Essa pandemia veio para acelerar o mundo digital, que vai tornar nossas vidas muito melhores e a cada dia que passa estamos sentindo isso.”

“Deixamos claro que se precisasse iríamos fazer redução de jornada de trabalho e, em último caso, R$ 1 mil para cada funcionário comprar somente comida, para sobrevivermos. Mas nada disso foi preciso. A equipe toda entrou fortemente no mundo digital e estamos colhendo excelentes resultados”, conta o empresário.

Segundo ele, antes da pandemia cerca de 120 instaladores e 50 arquitetos visitavam a fábrica semanalmente. “Hoje, a situação atual nos forçou a usar a tecnologia, mostrando a fábrica através de lives, com recursos de imagens. Como eu sempre digo: ‘Solta o tigre que eu ando mais rápido’”, brinca.

Para ele, o novo normal é usar a tecnologia para resolver problemas e produzir resultados. “É estar mais perto do cliente e deixar a vida dele menoschata. E quando a empresa cria uma cultura de deixar os colaboradores apaixonados por resolverem problemas, vai ter uma fábrica de resultados”, sugere o empresário. Ele cita a burocracia, a legislação trabalhista defasada e a alta carga tributária como empecilhos para empreender com sucesso no País, mas destaca a criatividade do povo brasileiro como uma vantagem para sobreviver às adversidades.

“O dolorido é aprender quebrando, falindo. E o outro conselho é o que chamamos no momento de empreendegado, que é a fusão de empreendedor com empregado. Conforme sua empresa for crescendo, crie um exército de gente boa, pois quando chegar a oportunidade, você estará preparado.”

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