Covid-19: o risco dos surtos em hospitais para o atendimento de saúde

Fechamento do Hospital Evangélico de Londrina na semana passada demonstrou como uma infecção interna pode levar à sobrecarga do sistema e dificultar atendimentos de pacientes não-Covid

Cecília França

No final do mês de junho, uma médica intensivista do Hospital Universitário de Londrina (HU), Cíntia Grion, afirmou, em entrevista à Lume: “O meu maior receio é a questão dos surtos intra-hospitalares”. Ela se referia ao impacto da pandemia do novo Coronavírus no atendimento de saúde. Um mês depois ficou demonstrado que seu receio tinha total amparo na realidade. Na semana passada, o Hospital Evangélico foi obrigado a fechar seus atendimentos de urgência e emergência após um caso interno de Covid-19. Com isso, sobrecarregou HU e Santa Casa, que chegou a registrar 140% de ocupação.

O paciente infectado estava em pós-operatório da retirada de um tumor quando apresentou quadro de insuficiência respiratória. De acordo com o gerente médico do Evangélico, Rodrigo Bettega, o quadro evoluiu rapidamente e ele veio a falecer em 24 horas. Não foi possível detectar a origem do contágio. “Ele ficou dez dias com a gente, rodou 80% do hospital. Teve contato com paciente de UTI, de quarto, ficou com outros 20 pacientes no salão”, detalha Bettega.

O paciente teve contato com outros 55 internados; destes, sete tiveram confirmação de Covid-19 e foram transferidos para outros hospitais. “O desespero que tivemos foi porque o paciente rodou o hospital inteiro. Quando o caso chega no Pronto-Socorro a gente consegue conter na porta. A limpeza física eu faço em um dia, mas o problema são os pacientes que estão aqui dentro, não posso dar alta, eles têm que ficar isolados”, explica o gerente.

Casos de contaminados no Pronto Socorro já haviam ocorrido, tanto no Evangélico quanto na Santa Casa de Londrina. Nas ocasiões, como medida de contenção, os PS ficaram fechados por 72 horas. O fato de muitos contaminados por Covid não apresentarem sintomas, dificulta a detecção.

Bettega ressalta que a rede de saúde em Londrina sempre esteve saturada, em função do grande número de municípios da região atendidos aqui. “Nosso recurso sempre esteve no limite, nossa rede sem Covid já era uma rede saturada, porque atende muito a região. O número de leitos Covid é suficiente, o problema são os não-Covid”, afirma.

No Hospital Universitário o Pronto Socorro chegou a operar com 115% da capacidade e a ocupação na UTI oscilou, mas alcançou 100%. Desde o início da pandemia, foi a primeira vez que a instituição enfrentou uma sobrecarga de atendimentos. Só na terça-feira os números começaram a baixar.

“O HU é o prestador que tem o maior número de habilitações. Atende também 96 municípios em diversas especialidades e houve um impacto que era esperado, houve uma superlotação iminente. Do dia 24 ao dia 27 recebemos 187 pacientes no Pronto Socorro. Importante ressaltar que não deixamos de receber os suspeitos e confirmados de Covid”, explica a superintendente, Vivian Feijó.

O impacto do fechamento do Evangélico já era esperado, tanto que o HU emitiu alerta de possibilidade de superlotação na sexta-feira (24). “Isso tudo levou a uma necessidade de readequação de estrutura física e de recursos humanos e acendeu o alerta no sentido de que precisávamos de medidas protetivas para que o HU também não venha a sofrer um surto. No caso de um surto no HU a rede não tem estrutura para absorver a demanda”, diz Vivian.

Além de ser hospital referência para Covid-19, o HU também é habilitado para diversos outros atendimentos, como de queimados, alta complexidade e gestação de alto risco.

Pronto Socorro do Hospital Universitário. Foto: uel.br

A superintendente ressalta que a ocupação nos leitos exclusivos para atendimento Covid não passou dos 60%, no entanto, o hospital não pode misturar pacientes. “Quando você vive uma pandemia, você tem várias variáveis que não controla, então, tem que ter mecanismos internos para conseguir proteger a sua equipe e os pacientes que não estão contaminados”, diz.

O impacto do fechamento do Evangélico levou a uma ocupação de 140% na Santa Casa no fim de semana. O superintendente da instituição e presidente do Sindicato dos Hospitais de Londrina e Região (Sinheslor), Fahd Haddad, ressalta que nosso sistema de saúde tem um equilíbrio precário.

“Normalmente já era precário, porque a gente tem muita demanda e poucas instituições que atendem SUS. Com a saída do HU do sistema para só atender Covid aumentou muito na Santa Casa e Evangélico. Em maio a gente teve um início de surto também e tomou as precauções, como se aqui fosse um hospital de atendimento de Covid”, explica. “A questão é que com qualquer acidente mais sério o equilíbrio do sistema se desfaz”.

No ambiente do Pronto Socorro, que conta com 12 leitos, a Santa Casa chegou a ter 50 pacientes. “Isso é desumano, mas a gente tem que atender. E tem uma causa: o SUS é um sistema relativamente novo, é bom, porém, mal financiado. Essa pandemia fez aparecer um pouco mais de recurso, mas é só para a pandemia. Nossa preocupação é que os outros tipos de doença também precisam de atendimento”, destaca Haddad.

O superintendente acredita que novos surtos podem ocorrer a qualquer momento, em qualquer hospital, mesmo com as medidas de contenção nos Pronto Socorros. Na Santa Casa, todos os pacientes são tratados como infectados ao darem entrada no PS. “Tem que fazer toda a anamnese clínica, mas nem todos falam o que sentem”, destaca.

As precauções tomadas pela instituição desde o início de surto ocorrido em maio, de acordo com Haddad, têm resultado em poucos afastamentos de funcionários.

Medicamentos

A Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) suspendeu as cirurgias eletivas (não urgentes) em todo o Estado a fim de evitar um desabastecimento de medicamentos. De acordo com a Sesa, há risco de falta de anestésicos e relaxantes musculares, essenciais para a intubação de pacientes contaminados por Covid-19, também usados, no entanto, no pós-operatório de muitos outros.

“Só estamos operando urgência e mesmo assim pode faltar (medicamento). Tivemos que adaptar nosso protocolo para não faltar e não deixar as pessoas morrerem”, afirma Fahd Dahhad. O superintendente da Santa Casa espera que o contexto da pandemia traga uma valorização do SUS. Ele também conta que foi pedido ao Secretário de Saúde do município que faça uma campanha de esclarecimentos à população.

“Que faça uma campanha na mídia esclarecendo os riscos às pessoas, dizendo para ficarem em casa para se proteger. Temos que fortalecer o sistema porque vão vir outras pandemias”, finaliza.

Prevenção

O prolongamento da pandemia tem dificultado a manutenção das medidas de prevenção, especialmente do distanciamento social. Em Londrina, o percentual atual de isolamento não chega a 40%. Vivian Feijó, superintendente do HU, destaca que as medidas de prevenção, que envolvem o comportamento das pessoas, são eficientes no controle da doença, mas que muitos têm a falsa impressão de que “está tudo bem”.

“Os números estão crescendo; por mais que as pessoas precisem trabalhar, faz-se necessário os cuidados”, ressalta. “Para a questão dos surtos há a necessidade de estabelecermos protocolos clínicos, voltados à higienização e limpeza dos espaços, sabendo que leitos são finitos e recursos humanos também”.

Londrina tem 2.794 casos confirmados de Covid-19 e 115 óbitos. De acordo com dados da Sesa, o contágio pela doença vêm aumentando continuamente na Macro Região Norte.

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