Representatividade com alegria

Graffitis com temática afrobrasileira do artista de rua Carão espalham sorrisos coloridos pelas ruas de Londrina e do mundo

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Contar histórias é um privilégio. E poder conhecer um pouco do que inspira este artista londrinense tão importante para a arte afrobrasileira num momento tão desafiador para o movimento antiracista torna-se quase uma obrigação. A lição que aprendi com o Carão, e que espero que toque os leitores também, é muito simples, mas especialmente verdadeira: “A periferia é um baú de talentos em todas as áreas. Vamos ficar atentos a isso”.

Você pode não saber, mas certamente já se deparou com uma obra do Carão ao passear pelas ruas de Londrina. Seu trabalho engloba coloridos e expressivos rostos de pessoas negras. Retratos que captam uma beleza singela e alegre, numa visão otimista de uma população marginalizada pela sociedade.

“Hoje as pessoas me dizem que o graffiti na rua, de alguma forma, muda para melhor o dia de quem o vê. Também traz uma representatividade da minha raça, do preto, e isso é importante num país onde somos maioria mas não unanimidade. Não protagonizamos aqui e o graffiti na rua muda isso. Ele causa a identificação porque serve de espelho para nós”, justifica Carão.

Carão diante de uma de suas obras em um muro londrinense. Fotos: Arquivo Pessoal

Como muitos meninos nascidos e crescidos na periferia, ele tinha o sonho de ser jogador de futebol na infância. “Cheguei a jogar em clubes e times de bairro quando menino, mas logo conheci o skate e depois o hip hop e o graffiti”, recorda. Uma derrota para os gramados, mas uma grande vitória para a arte.

Tadeu Roberto Fernandes Lima Júnior, 39 anos, ganhou o apelido de Carão na adolescência: “Por eu ser desinibido em alguns momentos, daí vem o Carão”, confessa. Nascido no Conjunto João Paz, na Zona Norte de Londrina, Tadeu é o caçula de quatro filhos e bendito fruto entre três irmãs. “Minha infância foi simples, mas muito feliz. Fui criado nos Cinco Conjuntos. Sempre fui muito tranquilo e desde muito novo já gostava de desenhar”, conta o corintiano fanático, paixão que herdou do pai.

Na adolescência, Tadeu fez um pouco de tudo: vendeu sorvete, produtos de limpeza e até trabalhou numa loja de tapetes persas, em meados de 1997. “Fiquei uns dois anos com registro na carteira, aliás meu único registro em carteira. Trabalhei com dois senhores iranianos que têm uma religião super bonita, chamada Fé Baha’i. Eu tenho muito carinho por eles”, diz.

Dois anos depois, deixou a loja para trabalhar com informática. “Eu montava computadores, fazia sites, entre outras coisas. Foi quando, em 2000, tive contato com o graffiti, arte que pratico até hoje e que me deu toda a bagagem que tenho.” Do graffiti, logo entrou para o universo da tatuagem, que também garante o ganha-pão. “Posso dizer que sou um profissional feliz, pois vivo da minha arte.”

“Já perdi meus pais, mas eles sempre foram presentes e sempre me apoiaram em tudo e sou muito grato a eles por isso”, garante o artista, que nas horas vagas gosta de pintar na rua, fazer graffiti com os amigos e estar com a namorada e as irmãs.

“Minha formação foi na rua”, confessa Tadeu, que encontra na música a inspiração para sua arte: “Sou bem eclético musicalmente. Gosto desde Racionais passando por Pearl Jam até Belchior, um pouco como herança dos meus pais. Sou muito musical apesar de não tocar ou mesmo dançar, mas tudo que faço é com música”, conta. Entre seus artistas preferidos estão rappers nacionais dos anos 1990, “aqueles raps com letras longas e politizadas. Escuto muito grunge e bandas do final dos anos 1980 e começo dos 1990 e música popular brasileira, também”.

Livros de Stephen King e seriados de sucesso com temáticas bem variadas também fazem parte do seu repertório, como Anne with E e Dark e “o incansável e interminável The Walking Dead, que assisto desde que estreou, em 2010”, brinca. Já sua comida favorita é bem simples: “Arroz, feijão e uma salada já tô felizão”.

A profissão de artista lhe permitiu viajar para longe dos cinco conjuntos londrinenses. “Amo viajar, já rodei para todo canto. Conheço o Paraná todo, conheço Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre , Florianópolis, Campo Grande e fora já fui para Assunção e Buenos Aires, ver o Corinthians jogar. Conheço Colômbia, Venezuela, França, Inglaterra, Portugal, Bélgica, Estados Unidos”, elenca. “Meu projeto é pintar no interior do Nordeste e na África mãe. Tá aí meu sonho, e vou realizar!”

Carão lembra que a arte aconteceu naturalmente em sua vida: “Eu sou muito dedicado em tudo que faço, então acredito que isso vem me ajudando a continuar fazendo e aprendendo. Tudo aconteceu tijolo por tijolo.” Para “manter as contas no verde na pandemia”, ele tem pintando telas e feito alguns desenhos em papel. Além da arte de rua e do trabalho no estúdio de tattoo, ele criou um espaço coletivo de arte e cultura batizado de Cap Style Home Art, onde suas obras com temática afrobrasileira estampam camisetas, bonés, moletons, além de telas, prints e latas. Lá também são ofertadas oficinas de graffiti.

“Que legado gostaria de deixar com a minha arte? Alegrar pessoas. Mostrar e fazer pessoas pretas acreditarem em si. Mostrar que realmente somos importantes, inteligentes e bonitos”, ensina.

Para conhecer a arte do Carão acesse:

@caraocapstyle

@capstylehomeart

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