Militância luta contra vulnerabilidade da população trans e travesti

Grupo de Apucarana ampara comunidade T com mantimentos e informação durante a pandemia

Cecília França

No último dia 20 de junho, Renata Borges atravessou a avenida mais movimentada de Apucarana (a 54 km de Londrina) em cima de um trio elétrico rumo à prefeitura. Ao microfone, discursava em defesa dos direitos da população transexual e travesti, reduzida, em sua maioria, à condição de prostitutas. “Nós estamos cansadas de ser prostitutas”, bradava. “Nós queremos trabalho. Nós queremos discutir o uso do banheiro. É incrível que, em 2020, a gente ainda tenha que discutir acesso ao banheiro”, dizia, referindo-se ao banheiro público situado na rodoviária da cidade.

A situação de vulnerabilidade das pessoas trans e travestis é uma realidade altamente agravada pela pandemia do novo Coronavírus. Pesquisa do coletivo VoteLGBT – realizada entre 28 de abril e 15 de maio com mais de 10.000 integrantes da comunidade LGBTQIA+ do país – identificou o grupo como o mais vulnerável no atual contexto, próximo dos pretos, pardos e indígenas e dos bissexuais, mas ainda à frente.

“Quando chegou essa Covid foi de rasgar o coração, porque fecham-se as lojas, os comércios, a indústria, vai refletir lá na ponta, que são as prostitutas. Não tendo clientes, não tem o que botar na mesa”, conta Renata. As travestis ficaram desassistidas de mantimentos e de informação. A solução foi agir.

Renata e outras voluntárias foram as responsáveis por entregar máscaras, álcool em gel, camisinhas, e detalhar os riscos do contágio para as que vivem da prostituição nas ruas.

“Minha grande preocupação é que tudo começou a entrar em colapso com a Covid. Como as meninas vão fazer sexo? Os clientes não vão com máscara, não fazem higienização”, explica. Pelas redes sociais, a militante contou com o apoio da comunidade para comprar cestas básicas para as mais vulneráveis.

Mariane Mendes, que atua junto com Renata, diz que muitas apucaranenses acabaram deixando a cidade rumo a São Paulo, centro da pandemia, para conseguir trabalhar. A transexual, que descobriu a rua aos 16 anos e vivenciou a realidade da prostituição na capital paulista, em Curitiba e outras cidades, deixou o passado para trás e hoje, aos 23, trabalha com os pais.

“A sociedade nos exclui, não nos dá empregabilidade, só somos jogadas para a prostituição aqui. Na rua eu estaria vulnerável ao Coronavírus, porque os números de infectados só aumentam e, com certeza, eu pegaria um cliente infectado e estaria também”, imagina.

Durante a pandemia a realidade da população T ficou ainda mais agravada diante das medidas de isolamento, destaca Mariane. A rua tornou-se um lugar em que ninguém quer estar, mas as prostitutas não tiveram opção diante da falta de amparo do poder público.

“Como pedir para ficar em casa sabendo que precisa da prostituição para trabalhar e comer?”

Mariane ressalta, ainda, o impacto da baixa escolarização na vida das travestis e transexuais – outro problema estrutural que precisa ser enfrentado.

“As meninas ficam ali não porque querem. Ninguém quer ficar na rua, amiga. O índice de escolaridade delas é muito baixo, deixaram a escola muito cedo, apanhavam de outras crianças na escola. Eu converso com elas sobre sonhos, elas têm sonho de entrar na universidade”, conta.

Visibilidade contra a marginalização

Renata Borges em foto das redes sociais

Renata Borges, que abre a matéria, não tem histórico de prostituição e, neste ponto, sua história se distancia da imensa maioria das travestis brasileiras, já que 92% delas vive do mercado do sexo.

Apesar de ter atrasado os estudos – em grande parte pelo constrangimento em usar o nome de registro – ela sempre trabalhou com carteira assinada e morou com os pais a maior parte da vida, em Curitiba, sua cidade natal. Hoje, aos 37, está casada e é universitária em Apucarana.

O entendimento maior da realidade da população T veio com o trabalho em uma Organização Não Governamental dedicada a assisti-las. “Fui trabalhar na ONG e me sentia muito esquisita, porque todo mundo vinha de muita miserabilidade, todas muito machucadas pela vida”, lembra. “Eu não tive que buscar a prostituição, não fui expulsa de casa. Minha briga com meu pai foi quando eu comecei a defender as meninas”.

Renata aponta a exclusão das pessoas trans dentro da própria comunidade LGBT, um reflexo, destaca, do machismo estrutural da nossa sociedade. “Transexual não tem lugar de fala. Não posso desistir delas, porque a sociedade já desistiu”, finaliza.

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