‘Se sentir útil é o caminho’

Estudante londrinense lança linha de camisetas para gerar lucro para artistas locais que tiveram o trabalho comprometido na pandemia

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Uma boa surpresa num mundo de superficialidade. Este é o estudante de engenharia civil da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Daniel Mancebo Fernandes, 22 anos, administrador do projeto Arte no Rolê nas rede sociais, que, nas palavras dele, “busca valorizar a comunidade artística, oferecendo visibilidade e apoio financeiro para quem teve seu trabalho comprometido pela quarentena”.

Obras de diversos artistas londrinenses foram estampadas em camisetas, que são vendidas na página do projeto no Instagram – @roleerradolondrina –, que tem mais de 14 mil seguidores, e todo o lucro é destinado ao próprio artista. Empatia que saiu do campo das ideias e virou ação. No primeiro mês de projeto, foram vendidas mais de 200 camisetas, gerando cerca de R$ 5 mil para artistas de Londrina, Curitiba e São Paulo. 

Segundo Daniel, o processo de escolha dos participantes foi por recomendação: “Perguntamos nos stories de quais artistas locais o público mais gostava e o pessoal respondeu. Anotamos e convidamos artista por artista. Hoje estamos com 80 estampas, dentre elas bandas, grupos de teatro, pintores, grafiteiros, artistas de todas as áreas. Pretendemos fazer moletons e ecobags, mas ainda estamos estabilizando a parte das camisetas antes de pensar em expansão”, conta. “Camiseta é bom porque tem liquidez, todo mundo usa e pode ser adquirida a um preço razoável.”

Com o sucesso da venda das camisetas, a meta agora é estruturar ainda mais o negócio para torná-lo sustentável e contínuo. “Não pretendemos parar, queremos crescer. O trabalho é relevante quando grita que a arte merece respeito e o artista faz do mundo um lugar melhor”, diz Daniel. “O artista questiona, ressignifica, entretém, separa e une. A mentalidade que rege nossa sociedade marginaliza essa categoria de profissional e quase que obriga quem quer ter a arte como profissão a ter a arte como hobby”, opina.

Daniel Mancebo. Fotos: Arquivo Pessoal

Mas quem é o garoto por trás da Arte no Rolê? Diferente de outros personagens com quem já conversei nessa vida de jornalista, Daniel respondeu minhas perguntas num único texto. Foi uma espécie de catarse de um jovem que está apenas iniciando a vida, mas já tem algo a dizer: “Uma frase que me define? Tem uma que eu escrevi um tempo atrás que diz muito sobre mim: ‘Antes dar-se do que nunca’. Eu gosto dessa”. 

“Começar pela cidade é um bom começo. Eu gosto daqui (Londrina). Um pouco é comodismo, um pouco é teimosia e um pouco é uma sensação boa de andar pela cidade e ir lembrando das coisas que me aconteceram pelas esquinas, do primeiro beijo, do capote de bicicleta, o cemitério. Sempre me irritou ouvir gente falando mal de Londrina. É uma cidade com todo tipo de gente e eu gosto da maioria das pessoas que a vida me apresenta. Não precisa nem falar que eu romantizo esse espaço todo. Eu prefiro assim, acho que é daí que vem essa energia para trabalhar o tanto que eu trabalho. Acreditar no potencial das pessoas é uma boa motivação para levantar da cama”, diz Daniel.

Nascido em dezembro de 1997, foi o pai de Daniel – que é obstetra –  quem fez seu parto, no Hospital Mater Dei. “Isso já diz sobre minha condição financeira. Tive muita oportunidade e uma mãe que soube me ensinar o que é respeito”, alerta o jovem, para quem escrever sobre si mesmo “é sempre um incômodo num mundo com tanta informação e tantas outras histórias mais chamativas para gastar o tempo lendo”. 

“Eu brincava o mesmo tanto que brigava, ter irmão nunca foi fácil e nunca vai ser. Nos momentos de paz, tinha muito jogo de tabuleiro, terra, grama, cachorro, bola, giz. Nem sei como vim parar no digital, não tive muito disso na minha infância. Não me lembro de sonhar muito não. Eu fazia mais que sonhava, planejamento nunca foi meu forte”, conta Daniel.

Daniel e o artista londrinense Muka

Para ele, assim que as ideias surgiam, ele as colocava em prática: “Era instantâneo, a ideia vinha e eu já fazia, da forma mais impulsiva que se pode imaginar. Se eu quisesse saber como funcionava um telefone, eu ia lá e desmontava o telefone de casa sem pensar duas vezes”, relembra. “E minha vida inteira foi meio assim. Tudo isso faz da minha rotina um caos necessário. Não sei ter férias e meu tempo livre raramente é livre. Pouca gente entende como é possível simultaneamente cursar Engenharia Civil na UEL, tocar o Rolê Errado, Centro Acadêmico, ainda tem o Observatório de Gestão Pública de Londrina, o projeto Arte no Rolê”, desabafa.

Quando sobra algum tempo para ler, Daniel gosta de distopias. “Saramago, Huxley, essas coisas. Me choca quão próximas essas histórias estão desse Brasil de 2020.” Sobre música, “de Bocelli a Clara Lima, não tem muito filtro não. ‘Tudo Muda’, da Clara com Cris MC, tem sido meu hino nessa quarentena eterna. Eu recomendo.” “Mas quem não correu por nós, vai correr de nós”, diz o refrão da rapper mineira.

Se é feliz no que faz? “Acho que sim. Tem propósito, tem amigo e tem projeção. O bom de ser impulsivo é que a gente tenta tanta coisa diferente que descobre o que não quer fazer. O Rolê Errado e agora o Arte no Rolê têm me feito muito bem. Parece que estou me encontrando nessa onda de gestão, cultura, marketing. Tudo está conectado. E como diz minha irmã, se sentir útil é o caminho”, observa Daniel.

Segundo ele, não dava mais para postar a tabela de eventos em Londrina como ele fazia na página do Rolê Errado desde 2014. “Não tem mais aglomeração, nem festa, nem show, nem teatro e nem tabela. Então eu tinha duas opções, congelar a página e esperar a vacina chegar, ou usar o alcance do Instagram e do Facebook do Rolê para alguma coisa que faça mais sentido. Me inspirei no @fluacultura, que também posta sobre eventos culturais da cidade, vi eles reinventando e pensei que eu poderia fazer o mesmo. É uma responsabilidade da mídia não só comunicar, mas dar oportunidade a quem precisa de espaço de fala. Congelar a página seria de uma negligência comprometedora.”

Para comprar as camisetas e ajudar os artistas, acesse:

@roleerradolondrina

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