Sem quarentena, domésticas se equilibram entre risco de contágio e necessidade de trabalho

Trabalhadoras foram afetadas de diferentes formas na pandemia: muitas perderam o emprego, outras seguem trabalhando com medo da exposição ao vírus

Cecília França

Desde que a pandemia do novo Coronavírus estourou em Londrina e as medidas de isolamento foram impostas, em meados de março, Rosa de Souza, 38, segue trabalhando. Ela pertence a um contingente de trabalhadores não classificados como essenciais por decretos, mas sem direito à quarentena nem mesmo por períodos curtos. As domésticas foram impactadas de diferentes formas pelo avanço da Covid-19: de um lado, o desemprego, especialmente entre as informais; de outro, a exposição ao risco de contágio pelas que seguem trabalhando, principalmente mensalistas.

Rosa está neste segundo grupo. Mãe de uma jovem de 17 anos asmática – grupo de risco para Covid-19 – ela ficou por dois meses sendo levada de carro pelo marido e retornando para casa com os empregadores. Neste período, a filha teve o contrato de trabalho suspenso. No mês passado, no entanto, ela voltou a enfrentar o transporte público logo pela manhã e precisou reforçar as medidas de segurança para evitar contaminação.

“Pego ônibus 6h30, está bem lotado. As pessoas que trabalham em empresas começam muito cedo. Uso máscara, álcool em gel e luvas, se for preciso. Evito segurar nos ônibus e procuro sentar na poltrona que só tem um lugar, quando consigo. É só Deus para cuidar, porque é um dos lugares que mais tem contaminação”, lembra ela. No condomínio de alto padrão em que trabalha, na Zona Sul da cidade, Rosa diz se sentir segura.

“No trabalho me sinto segura pelos cuidados dos meus patrões. Na entrada no condomínio já medem a temperatura, borrifam álcool nos pés. Não está tendo festa na casa, minha patroa tem a consciência de não receber visitas”, conta. No bairro onde vive, nas imediações do Autódromo Internacional Ayrton Senna, porém, Rosa não vê os mesmos cuidados dos moradores, que se aglomeram na praça do bairro enquanto ela, o esposo e a filha não saem de casa.

“O que vai acontecer é que o comércio vai fechar de novo, porque o povo não colabora”, opinou a doméstica à Lume cerca de duas semanas atrás, como que prevendo o lockdown imposto pelo governo estadual a Londrina e outras regiões do Estado no último dia 2 de julho. “Nosso amigo faleceu de ‘corona’, trabalhava de pedreiro, pegou na casa do patrão porque o genro do patrão estava contaminado e não sabia”, conta. O caso deixou Rosa ainda mais preocupada.

“A gente vai trabalhar todo dia com medo”
Rosa de Souza indo para o trabalho. Foto: Grazielly de Souza

Renda que despenca
“Os trabalhadores domésticos foram muito afetados, ora por serem diaristas, não terem contrato e serem dispensados por não terem vínculo nenhum, ora por não terem direito à quarentena”, avalia Camila Cardoso, 27. Ela pertence à parcela informal de domésticas, altamente afetada pelo desemprego no contexto da pandemia. Das quatro diárias fixas que tinha, perdeu três. O auxílio emergencial de R$ 600 do Governo Federal, solicitado em abril, só foi aprovado no final de junho.

“Agora estou morando com a minha mãe. Como ela tem trabalho fixo, paga a maior parte das conta da casa. Antes a minha renda era instável, mas era uma renda que dava para ajudar em casa e fazer as coisas que eu queria; agora ela está bem abaixo”, relata. Para Camila, mesmo com a regulamentação do trabalho doméstico, há cinco anos, pela Emenda Constitucional 72 (a PEC das Domésticas), a profissão ainda é desvalorizada. Ela acredita que os empregadores deveriam se responsabilizar pelas domésticas neste período, como em qualquer outra relação de trabalho.

“Se as empresas fazem isso, se existe o direito à quarentena, porque o trabalhador doméstico tem que ser visto diferente? Tem muita gente que mesmo depois da regulamentação nem vê o trabalhador doméstico como trabalhador, mas como uma pessoa que vai lá limpar a sua casa, como se não tivesse a mesma obrigação na relação de trabalho com o funcionário de uma empresa”, reclama.

Camila Cardoso e o filho em casa. Foto: Arquivo Pessoal

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos de Londrina (Sindom), Maria Helena dos Santos Tolomeotti, considera que os empregadores da região têm sido, em geral, corretos nas obrigações com os trabalhadores. A informalidade, entretanto, também é muito alta. Mas esta é uma avaliação do contexto pré-pandemia, explica. O impacto do novo Coronavírus nas relações de trabalho doméstico ainda é difícil de ser avaliado.

O sindicato vem atuando junto às trabalhadoras com orientação. “A ajuda do sindicato tem sido no sentido de orientação em relação a contratos, as mudanças vigentes nos mesmos; em relação a cálculos, acertos de contas; ajudá-las a se inscreverem nos programas de renda do governo e demais serviços solicitados pela categoria”, resume Maria Helena.

Não há um número atualizado do contingente de domésticas em Londrina, mas a presidente do sindicato acredita que passe das 20 mil.

“Eu nasci doméstica. Quando criança era babá dos meus irmãos; depois, doméstica da minha mãe. Aposentei e continuo doméstica”

A aposentadoria é justamente o que tem garantido a sobrevivência de Natalina Francisca Cândida, 64. Antes da pandemia ela trabalhava na mesma casa há 42 anos, mas os patrões, de idade avançada, optaram por afastá-la. “Deixei de trabalhar nesse lugar, onde ia três vezes por semana. Se não fosse a aposentadoria eu estava ferrada. Também trabalho na casa de um rapaz duas vezes por semana. Nesse eu continuo porque ele manda o Uber me pegar e me trazer, para não ficar andando no ônibus”, conta.

Natalina ainda tem sua mãe como dependente e está em isolamento rigoroso. “Saio só nesses dias para trabalhar. Uso máscara, levo álcool gel na bolsa”. Os hábitos da vizinhança também mudaram. “Aqui, meus vizinhos, a gente era acostumado a sentar na calçada, tomar vinho, ir na casa um dos outros tomar café…A gente não está fazendo mais isso”.

“Se fosse para sair, pegar ônibus, acho que eu não iria, não”

Simone Aparecida da Silva, 50, é mensalista e conta com a “carona” dos empregadores para evitar o transporte público. “Desde quando começou a pandemia eu não fui mais de ônibus, eles buscam e trazem todo dia. Mas a maioria (das domésticas) que eu conheço os patrões dispensaram; no começo ajudaram, mas agora…”, diz ela.

Simone divide a casa com a mãe e uma irmã, cujos patrões também buscam e levam todos os dias. O contato com pessoas fora do trabalho tem sido mínimo. “Se fosse pra sair, pegar ônibus, acho que eu não iria não. A gente tem ficado em casa direto, não sai mesmo. Não conheço ninguém que tenha contraído a doença, mas também não tenho visto ninguém”, finaliza.

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