Covid-19: pobres vão se infectar e gerar imunidade para ricos

Pesquisa mostra que novo Coronavirus infectou 6,5% da metade mais rica de São Paulo e 16% da mais pobre

Nelson Bortolin

Os pobres vão adoecer e morrer muito mais e vão criar a imunidade de rebanho que vai proteger os ricos. É o que se concluiu da análise dos dados da segunda etapa de um estudo de prevalência da Covid-19 na cidade de São Paulo. Divulgado na semana passada, o levantamento mostra que 11,4% dos paulistanos já tiveram contato e sobreviveram ao novo coronavírus. Quando se olha o resultado separadamente na metade mais rica e na metade mais pobre do município, há uma diferença muito grande, de 6,5% no primeiro caso para 16%, no segundo. Noutras palavras, a doença acomete 2,5 vezes mais a metade mais pobre.

Professor titular de bioquímica da USP, Fernando Reinach comenta os números no podcast “Luz no fim da quarentena”, produzido pela revista Piauí e Rádio Novelo. E conta que a primeira fase do levantamento foi feita entre 4 e 12 de maio em apenas seis distritos da capital paulista, quando se verificou que 4,7% dos pesquisados já tinham sido infectados pelo vírus. Já a segunda, entre 15 e 24 de junho, foi bem mais completa, abrangendo todo o município.

“A gente escolhe as casas totalmente ao acaso. Coletamos (sangue) de 1.183 pessoas e a prevalência está em 11,4%. Apesar de a comparação não ser muito perfeita (porque na primeira fase a pesquisa foi bem mais restrita), a prevalência subiu entre 4 de maio e 15 de junho de 4,7% para 11,4%”, afirma. O primeiro levantamento foi feito 10 semanas após a confirmação do primeiro caso na capital. “Em 10 semanas, saímos de zero para 4,7% e, em mais seis semanas, já temos 11,4%, reforça.

O pesquisador ressalta que a metodologia da pesquisa é robusta. “O intervalo de confiança desse número (11,4%) vai de 9,2% a 13,6%. Ou seja, a gente tem 95% de certeza que o número não é menor que 9,25% nem maior que 13,6%”, explica.

No podcast, o jornlista José Roberto de Toledo calcula que, se a pandemia continuar no mesmo ritmo, no final de julho a cidade pode ter “23%, 24% da população soropositiva” para o novo coronavírus. O que é confirmado pelo pesquisador. “Se a pandemia continuar a crescer a essas taxas, o meu palpite é que deve aumentar porque vai ter um relaxamento das medidas sociais, então não é impossível imaginar 22%, 23% (no final de julho).”

Toledo estima que, no final de agosto ou início de setembro, metade da população paulistana tenha contraído o vírus, o que estaria próximo da imunidade de rebanho. Isso a um custo de 30 mil mortes. De acordo com o jornalista, o número de óbitos pela Covid-19 na capital vem crescendo no mesmo ritmo da prevalência mostrada pela pesquisa.

“A imunidade de rebanho é quando você tem uma maioria imunizada e os outros não precisam tomar vacinas porque são protegidos pela maioria imunizada O vírus não consegue se espalhar mais”, explica Reinach. Nas palavras do pesquisador, “uma maioria pobre imunizada vai proteger uma minoria rica não imunizada”.

Clique aqui para ouvir o podcast.

Outros dados da pesquisa

Escolaridade Prevalência (%)

Pessoas com até ensino fundamental 23

Pessoas com ensino médio completo 9

Pessoas com ensino superior completo 5,1

Cor

Pessoas que se autodeclaram pretas 19,7

Pessoas que se autodeclaram pardas 14

Pessoas que se autodeclaram brancas 7,9

Tamanho da família

Com até duas pessoas 8

De três a quatro pessoas 10

Com cinco ou mais pessoas 15,8

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