“Meu maior receio são os surtos intra-hospitalares”, diz médica de Londrina sobre Covid-19

Cintia Grion, intensivista no Hospital Universitário de Londrina, vê a cidade com estrutura suficiente para atender afetados pela pandemia, mas teme que aumento de casos entre profissionais de saúde limite atendimento

Cecília França

A pandemia do novo Coronavírus alterou a rotina da médica intensivista Cintia Grion, 55, de Londrina. Já aposentada como plantonista e dedicando-se quase exclusivamente à vida acadêmica, ela quadruplicou sua carga horária na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para atender ao aumento de demanda do Hospital Universitário (HU).

“O HU necessitou ampliar rapidamente o seu número de médicos plantonistas, e como tenho a formação específica e estava com tempo disponível, me voluntariei para aumentar minha carga horária dentro das UTIs na forma de plantão docente”, relata.

Grion também viu aumentar bastante a demanda por pesquisas clínicas, internas e em parceria com outras instituições. Sob sua supervisão, o HU integrou, por exemplo, um estudo nacional que busca comprovar ou não a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19.

A médica acredita que a atual estrutura de saúde de Londrina terá capacidade para atender todos os acometidos pela Covid-19, mas teme que questões alheias ao planejamento possam prejudicar os atendimentos.

“O meu maior receio é a questão dos surtos intra-hospitalares. Isso rompe um pouco a programação que foi feita de previsão de atendimento hospitalar. Muitas vezes os profissionais de saúde começam a ter um aumento muito rápido em adquirir essa doença e têm que se afastar por causa dela e aí, na falta, desses profissionais, mesmo tendo a estrutura física, a instituição não consegue continuar recebendo os pacientes”, avalia.

Grion também receia o impacto dos gastos atuais no pós-pandemia. Para ela, a saúde pública sairá fortalecida em termos de experiência, mas enfraquecida em termos de recursos.

Trajetória

Cintia Grion no HU. Fotos: Arquivo Pessoal

Grion tem um longo relacionamento com a Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde se graduou em 1987. Já em 1992, entrou para o quadro de médicos plantonistas do HU e, poucos anos depois, estreou como docente do curso de Medicina.

“Hoje já estou aposentada do vínculo de médica plantonista e atuo exclusivamente como professora, com boa parte da minha carga horária em pesquisa clínica, além, é claro, de atuar na graduação e na residência médica”, detalha.

Ciente de suas características de liderança e organização, ela conta que sempre quis trabalhar na área da saúde e que a escolha da medicina foi natural. “Eu nunca tive dúvidas e não errei. A medicina é minha vocação e sou muito realizada dentro da minha profissão”, garante.

Confira entrevista completa sobre a rotina de atendimento nas UTIs Covid-19, entre outros temas.

Lume: Como é sua rotina de trabalho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário (HU)? Ela foi alterada em virtude da pandemia do novo Coronavírus?

Cintia Grion: A minha rotina de trabalho na UTI do HU, antes da pandemia, era supervisão da residência médica, algumas atividades teóricas, bastante atividade de pesquisa clínica, com coleta de dados. Do ponto de vista assistencial, na minha rotina eu trabalhava 6 horas por semana como médica plantonista, em conjunto com a supervisão da residÊncia. Já fazia alguns anos que eu estava com essa carga horária. Ela era mais reduzia poque minha carga horária de professora sempre me tomou muito tempo. Tenho feito plantões assistenciais na UTI do HU no formato de plantão docente. Com a pandemia essa rotina foi totalmente alterada. Houve a suspensão do calendário acadêmico na metade do mês de março, isso deixou com que os professores continuassem algumas de suas atividades de forma remota. Eu tenho feito atividade remota com todos os meus alunos, essa parte da minha atividade como docente continuou, apesar da pandemia. Mas eu aumentei bastante a minha carga horária assistencial por uma necessidade do serviço. O HU necessitou ampliar rapidamente o seu número de médicos plantonistas, e como tenho a formação específica e estava com tempo disponível, então me voluntariei para aumentar minha carga horária dentro das UTIs na forma de plantão docente. Hoje faço 24 horas de plantão. Na pandemia, além dessa atividade assistencial aumentou muito a demanda por atuação dentro de pesquisas clínicas. Então, a gente participou de alguns estudos multicêntricos, ainda estou participando de um estudo para avaliar alguns aspectos terapêuticos da Covid-19, fora os protocolos de pesquisa que são da instituição e que a gente acaba auxiliando na condução e participando também.

L: Quais os protocolos de segurança para atuar nas UTIs Covid?

C.G.: Em relação à segurança do paciente, é exigido um mínimo de formação do médico que vai atuar dentro das UTIs e, além disso, esse médico conta com apoio de médicos diaristas, que são especialistas em terapia intensiva que atuam nas UTIs diariamente – a gente chama isso de uma atuação horizontal, para garantir a continuidade do cuidado do paciente e para orientar a programação terapêutica de cada paciente. Esses médicos têm condição de garantir todo o cuidado protocolar, todos os protocolos de ventilação mecânica, de nutrição, de sedação e analgesia, enfim, todas as atividades terapêuticas específicas que garantem a adesão às medidas que são reconhecidas como benéficas para esse paciente.

Com relação aos protocolos de segurança para o profissional de saúde, são a utilização dos equipamentos de proteção individual (EPIs) – todo o profissional que vai atuar na UTI Covid passa por um treinamento específico de como deve utilizar esses EPIs, porque existe uma técnica para se paramentar, e existe uma técnica também para a retirada desses equipamentos para que não haja a contaminação. E claro, o respeito aos isolamentos. Existem os indicativos em todas as unidades do paciente que ainda não confirmado, do paciente já confirmado como infectado, e esses pacientes são todos isolados. Então existe todo um treinamento de como entrar e sair desses isolamentos para garantir a proteção dos profissionais.

L: Londrina parece ter uma estrutura de atendimento diferenciada em comparação à média do país. A senhora concorda? Teme que cheguemos ao limite e seja preciso escolher quem vai sobreviver, como ocorreu em outros países?

C.G.: Concordo. O Sul do País, de um modo geral, parece ter conseguido achatar bem essa curva de incidência de casos de Coronavírus. O Paraná, especialmente, parece que foi um Estado que teve bastante adesão às medidas de distanciamento social e isolamento e nós realmente estamos com a curva bem achatada. Isso deu a oportunidade do Sistema de Saúde conseguir absorver o aumento de casos. Esta semana o aumento de casos apresentou um súbito pico (em uma semana os casos saíram de 795 para 1.080 e os óbitos de 45 para 62). Ainda assim, o HU e Londrina já estavam bem preparados para esse pico e toda a estrutura física e de Recursos Humanos já estava contemplada, já tinha sido prevista.

O meu maior receio é a questão dos surtos intra-hospitalares. Isso rompe um pouco a programação que foi feita de previsão de atendimento hospitalar. Nós pudemos presenciar o surto que aconteceu na Santa Casa, no Evangélico houve também um momento que precisou interromper o atendimento aos pacientes Covid. Muitas vezes os profissionais de saúde começam a ter um aumento muito rápido em adquirir essa doença e têm que se afastar por causa dela e aí, na falta, desses profissionais, mesmo tendo a estrutura física, a instituição não consegue continuar recebendo os pacientes. Então, meu maior receio é que esse aumento de incidência de casos também atinja os profissionais e limite a previsão que foi feita de atendimento. Se isso não ocorrer acredito que não teremos que escolher quem vai sobreviver.

Essa questão da triagem do paciente para ser atendido na terapia intensiva já é uma realidade dentro do Brasil há muitos anos, não é só por causa do Coronavírus. A UTI é um recurso de tratamento da saúde que é considerado de alto custo, nós temos recursos finitos e em muitos momentos as UTIs, especialmente aquelas do serviço público, não conseguem atender todos os casos que estão ocorrendo de pacientes graves Brasil afora. Então essa questão de priorização não é escolher exatamente quem vai sobreviver, é escolher quem vai ser tratado dentro da UTI e quem vai ser tratado fora da UTI, mas todos serão tratados. A gente á tem bastante experiencia com isso, já existem protocolos de priorização dentro do HU e já existe esquema de atendimento para garantir a segurança do paciente mesmo que ele esteja fora da UTI. Então o Coronavírus, nesse sentido, só se realmente suplantar a necessidade de leitos hospitalares, mas até o momento – mesmo durante esse pico dessa semana (semana passada), – o HU ainda consegue atender todos os pacientes com indicação de UTI e todos com indicação de admissão hospitalar dentro das unidades de internação. Se continuar da forma que está, ainda temos a perspectiva de aumentar bastante os leitos, acredito que não vai ocorrer como ocorreu na Itália, na Espanha. Não vamos viver aquele momento tão difícil.

L: Eu imagino que seu trabalho seja de muita tensão. Notícias falsas, que espalham suposta hipernotificação de casos de Covid ou remédios salvadores tornam o trabalho ainda mais complicado?

C.G.: O intensivista está sempre vigilante, antecipando uma complicação, um problema grave. É um plantão sempre muito pró-ativo. Mas o nosso treinamento para a especialidade de terapia intensiva consegue deixar a gente bem preparada para essas situações. Eu acredito que os intensivistas, de maneira geral, estão conseguindo conviver com essa situação de uma maneira mais tranquila.

Sobre notificações falsas, hipernotificação e remédios salvadores, na verdade o que é mais complicado no nosso trabalho são essas fake news e especialmente esses tratamentos que vêm vindo como salvadores, como medidas que, se a gente não aplicar no paciente, a gente pode não estar dando a oportunidade desse paciente sobreviver. É muito comum na medicina um artigo uma pesquisa clínica demonstrar um beneficio de um tratamento hoje e daqui alguns meses, anos, décadas, uma outra pesquisa contradizer esse achado.

Quando a gente fala de tratamento, a gente tem de tomar muito cuidado, ler com muita atenção o documento que foi liberado, estudar a forma como o tratamento foi feito, em que tipo de paciente, em que momento da doença, qual a dose e efeitos adversários apresentados. Existem muitas variáveis que a gente tem de levar em consideração antes de incorporar aquela terapia na nossa rotina. É possível que um tipo de tratamento que foi usado em pacientes idosos na Itália não tenha o mesmo resultado se aplicado aqui em pacientes mais jovens, com quadros clínicos da Covid com grau de gravidade diferente. Então, eu sempre tenho muita cautela para incorporar uma terapêutica dessa dentro do nosso protocolo de tratamento. Normalmente a gente faz uma reunião, estuda as informações que existem sobre esse tratamento e incorpora.

Com a Covid não está dando muito tempo de a gente fazer isso como a gente fazia antes porque esse processo pode levar meses. Na Covid não temos esse tempo, então isso torna o ambiente mais tenso porque a gente sempre quer acertar, dar sobrevida ao paciente, mas não quer causar mais danos com tratamento que tenha mais efeitos adversos que benefícios.

L: Existe pressão por parte dos pacientes, ou responsáveis, pela administração de remédios com eficácia ainda não comprovada, como cloroquina ou ivermectina?

C.G.: Certamente, não só por parte dos pacientes e familiares como até por parte de outros colegas médicos. Existe muita pressão, muita interferência, hoje o tratamento de um paciente respeita a autonomia dele. O paciente não pode indicar um tratamento, mas pode se recusar a fazer uma terapêutica proposta pelo médico se achar que não é por aí. Existe muita pressão e a gente tem de lidar com isso com calma profissionalismo e sempre se apoiando na parte técnica.

O problema dessa pandemia é que ela foi politizada. Existe uma histeria, um medo geral na sociedade sobre taxas de mortalidade. Isso se misturou com a política num momento difícil para o nosso país. Está se misturando com a questão socioeconômica, que é muito importante e vai impactar nossa qualidade de vida daqui para frente. Todo mundo quer um tratamento milagroso e infelizmente não existe. Faz parte do nosso trabalho lidar com essa pressão e ainda propor para o paciente o tratamento que a gente acredita ser de maior eficácia e segurança.

(Nota: em entrevista à Lume em maio, Grion esclareceu que o tratamento padrão oferecido aos pacientes com Covid-19, chamado de terapia de suporte, consiste em amenizar a insuficiência respiratória com uso de oxigênio; uso de medicamento antimicrobiano; tratamento para Influenza e suporte nutricional).

L: A senhora acha que as pessoas, em geral, menosprezam a seriedade da pandemia?

C.G.: Eu acho que existe uma parcela da população que menospreza e uma outra parcela que está muito amedrontada, e isso aumenta muito a percepção da seriedade da pandemia como se fosse realmente o fim dos tempos. É uma pandemia e infelizmente não temos controle sobre isso. E é o que mais assusta as pessoas. Mas a gente tem as informações necessárias para se proteger. É só usar essas informações a nosso favor. O problema é que a gente não pode passar do momento de isolamento social completo para outro em que as pessoas esquecem de todos os cuidados de distanciamento social e proteção individual. Tem de haver esse meio termo e seguir as orientações de nossos líderes, senão a gente vai ter muita dificuldade de atravessar esse momento tão difícil da nossa sociedade.

L: A senhora imagina que a saúde pública sairá fortalecida dessa crise?

C.G.: Eu acho que o Brasil de uma forma geral está se comportando bem nessa crise de saúde. Não vou opinar sobre a crise politica que dificulta sobremaneira atravessar esse momento, mas a saúde pública vai sair fortalecida pela experiência, pela forma como foi bem conduzida pelos nossos líderes de forma geral. Mas eu me preocupo muito com a escassez de recursos que teremos ainda durante a crise e logo após ela. Porque não somos um país rico, não vamos ter facilidade de repor todos os recursos que estão sendo dispendidos para o enfrentamento da crise. E sabemos que existem outras doenças no país que matam milhares e milhares de pessoas todos os anos. E essas situações clínicas vão sair prejudicadas a partir de agora: violência urbana, acidentes automobilísticos, infecções graves como a sepse, o câncer, tudo isso faz parte da nossa saúde pública.

Aqui na nossa região, temos a dengue. Logo depois dessa pandemia vamos voltar a ter aumento de incidência da dengue e os nossos recursos para financiamento provavelmente estarão diminuídos. Espero que a sociedade, com essa experiência, tenha aprendido a seguir as normas que são apresentadas pelos líderes. A dengue, que mata milhares de pessoas por ano, tem que ser levada a sério. Isso não pode ser menosprezado. Então, acho que a saúde pública sairá fortalecida em termos de experiência, mas enfraquecida em termos de recursos financeiros.

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