A solidariedade que vem da Reforma Agrária Popular

por Adriana Medeiros Farias, Manoel Dourado Bastos e Rozinaldo Antonio Miani*

Fotos: Wellington Lennon e Igor de Nadai

Em tempos de barbárie provocada pela extrema e perversa exploração capitalista – agravada pela emergência de uma pandemia causada pelo novo coronavírus -, a mercantilização dos bens da natureza atingiu patamares inimagináveis e insuportáveis. O capital financeiro internacional avança e segue transformando tudo em mercadoria: a terra, a água, o ar, a vida. A destruição das florestas, a concentração e a estrangeirização da terra, a liberação dos agrotóxicos, a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras do campo têm atingido níveis ofensivos com impactos destrutivos para a humanidade. Nesse contexto, o agronegócio, expressão máxima das políticas do latifúndio, emerge como a principal referência de atendimento aos interesses das burguesias nacional e internacional e procura se impor como o modelo de economia rural para o país.

Contrariando tal perspectiva, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por meio da agroecologia e de sua vasta produção camponesa, que deriva de terras de assentamentos e acampamentos por todo o país, possibilita o acesso da população ao consumo de alimentos saudáveis. Mais do que isso, nesse momento de crise humanitária e de agravamento da escassez de recursos para a própria sobrevivência, o MST – sob a coordenação da Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa (Copran) – oferece como ação político-solidária a doação/partilha de toneladas de alimentos (arroz, feijão, mandioca, abóbora e frutas). Trata-se de um ato de solidariedade de classe e de defesa da vida que irá atender comunidades indígenas e demais famílias acometidas de toda forma de precariedade, agravada pela falta de políticas públicas de saúde, de moradia e de alimentação por parte dos governos municipais, estaduais e federal.

As ações do MST que trazem alimentação saudável para a cidade não são recentes e merece destaque o Feirão da Resistência e da Reforma Agrária realizado no Canto do Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL), na cidade de Londrina. O Feirão está se reorganizando, considerando a importância do isolamento social como medida fundamental para a manutenção das vidas nesse tempo de pandemia. Para atender as famílias fazendo chegar alimentação saudável e com a segurança que os tempos atuais exigem, tem viabilizado a venda de cestas de alimentos por meios alternativos com entrega nas próprias casas dos consumidores.

A produção familiar oriunda da Copran tem chegado às escolas públicas e às crianças, aos adolescentes e aos adultos, ainda que estes não saibam. Todos eles têm tido a possibilidade de consumir alimentos da marca Campo Vivo, como iogurte, manteiga, queijo, requeijão, verduras e legumes, que vão ocupando a vida da cidade no verdadeiro ato educativo. Nem tudo é agronegócio! Nem tudo é agro, é tech, é pop, é tudo! Nem tudo é Rede Globo! Não precisa ter veneno à mesa. A alimentação saudável oriunda dos assentamentos e dos acampamentos está cada vez mais perto da mesa dos trabalhadores e das trabalhadoras e sinaliza o papel que o MST tem na construção de outra ordem social. Reconhecer o papel dos Movimentos Sociais e Populares na construção de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária, com educação de qualidade para todos e todas e com a oferta de alimentos saudáveis é tornar os territórios de reforma agrária um campo de construção em diálogo com diversas instituições formativas. E a Universidade é uma delas.

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) realizou nos últimos anos, com a participação de professores e de estudantes das mais diversas áreas, inúmero projetos e ações de ensino, de pesquisa e de extensão em diálogo com o MST. Nessas ações, o tema da Reforma Agrária Popular foi pautado nos mais diversos cursos de graduação e de pós-graduação. Como resultado, esses projetos e ações cumpriram papel fundamental na formação estudantil ampliando as perspectivas de atuação profissional e acadêmica, inclusive, produzindo o engajamento de recém-formados na organicidade do movimento. A experiência formativa produzida no ambiente universitário comprometido com novos valores humanos e sociais reconhece o MST como sujeito coletivo de produção de conhecimentos, valorizando os assentamentos e os acampamentos como território de estudo e de aprendizagens.

Nesse contexto, a defesa dos processos de produção de alimentos saudáveis, na perspectiva da agroecologia; a contribuição na construção de experiências comunicativas de natureza contra-hegemônica, por meio da comunicação popular e comunitária; e a construção e consolidação de uma proposta de educação pública do campo, com destaque para as escolas itinerantes com sua organização curricular centrada nos Ciclos de Formação Humana e na experiência dos Complexos de Estudos, foram apenas algumas das contribuições oferecidas por docentes de universidade pública comprometidos com a luta em defesa da Reforma Agrária Popular, como projeto de democratização da terra, de produção de alimentação saudável para todas as pessoas, enfim, de uma nova sociedade mais justa e humanitária.

*Adriana Medeiros Farias é professora do Departamento de Educação da UEL; Manoel Dourado Bastos, é professor do Departamento de Comunicação da UEL; e Rozinaldo Antonio Miani é professor do Departamento de Comunicação da UEL.

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