Três meses após primeiro caso, Coronavírus avança em toda Londrina

Todos os bairros da cidade registram casos de Covid-19; confirmados chegam a quase 900 e mortes a 51

Prefeitura anuncia multas por desrespeito a normas de distanciamento, mas descarta fechamento do comércio 

Cecília França

Foto em destaque: Isaac Fontana

Em uma mensagem de voz, Maria me diz “Você viu que a coisa ficou feia aqui no Cincão?”. Acostumada com seus relatos de violência no bairro onde vive, na Zona Norte de Londrina, perguntei se tratava-se disso. “Não, é o ‘bichinho’ mesmo. Pegou feio por aqui”. O bichinho é o novo Coronavírus. A sensação relatada pela diarista Maria Loreci Sezinandi encontra justificação nos dados. A Covid-19 já chegou a todos os bairros de Londrina e os infectados passam a ser pessoas conhecidas, não mais apenas números.

“Tem uma senhora de idade que morreu essa semana aqui; uma mulher aqui debaixo também tinha pegado esses tempos, mas sarou”, conta ela. A disseminação do novo Coronavírus teve início nas áreas Central e Sul de Londrina. Assim como aconteceu no País, pessoas de classes mais altas foram as primeiras a contrair o vírus em viagens locais ou internacionais. Passados três meses do primeiro caso registrado na cidade, em 17 de março, o vírus já alcança todas as regiões e chega às periferias.

No II Informe Epidemiológico, divulgado pela Prefeitura de Londrina em 2 de maio, consta que “a distribuição dos casos positivos no mapa, mostra evidências de que a circulação viral do Coronavírus em nossa cidade teve início e ainda se mantém concentrada em regiões do município, cujo perfil da população se enquadra nas classes sociais de média e classe média alta”. Os dados de internação também comprovavam a maior concentração entre pessoas de renda mais alta: 42,2% dos infectados encontravam-se internados em hospitais privados.

O IV Informe, de 2 de junho, já mostrava uma inversão na porcentagem de internações, com 34% dos acometidos em hospitais públicos. A primeira morte por Covid-19 em Londrina foi registrada em 3 de abril, quando a prefeitura já havia instituído o fechamento das atividades produtivas, que vigorou de 23 de março a 19 de abril. Após a reabertura dos setores da indústria, comércio e serviços a curva de contaminação intensificou uma ascendente que ainda não cedeu.

Até ontem Londrina contabilizava 893 casos confirmados de Covid-19 e 51 óbitos. No último domingo a cidade teve cinco mortes em 24 horas, número que voltou a se repetir na segunda-feira.

Ainda assim, os dados não demonstram a necessidade de novo fechamento do setor produtivo, na opinião do prefeito Marcelo Belinati. O chefe do Executivo vem defendendo que a estrutura de saúde montada pelo município não está perto do colapso e que a população deve assumir a responsabilidade em promover o máximo isolamento social possível.

Em coletiva online na tarde de ontem (16), Belinati anunciou multas para quem descumprir medidas de distanciamento e promover aglomerações (saiba mais abaixo).

Para a promotora pública de Saúde, Susana de Lacerda, no entanto, achar que estamos em uma situação confortável no tocante à oferta de leitos é um equívoco, visto a posição de referência regional de Londrina. “Primeiro que não temos, ao contrário do que se afirma, 400 leitos exclusivos de Covid. Na macro região Norte podemos até visualizar uma ocupação confortável, mas a maioria dos hospitais da região não tem condições de atender pacientes graves. Têm uma UTI, por exemplo, que não tem retaguarda de aparelhos e recursos humanos. O HU (Hospital Universitário), apesar de ser referência de Covid, não deixou de ser para queimados, várias situações de pediatria, gestantes de alto risco, uma série de situações”, alerta.

Atualmente a promotora acompanha a evolução da pandemia por meio de dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) e dos próprios hospitais. Ela destaca a necessidade de fiscalização das medidas de distanciamento social, o que, segundo ela, não tem acontecido em Londrina. “Nós vimos, no fim de semana, os municípios de Ponta Grossa, Curitiba, fazendo fiscalização em bares, restaurantes, onde as pessoas estão aglomeradas, e isso não acontece aqui em Londrina. O apelo fica no discurso”.

Lacerda acredita na necessidade de escalonamento dos horários de funcionamento das atividades produtivas como forma de diminuir o fluxo de passageiros no transporte coletivo.

“Os ônibus em determinados horários estão muito lotados. Eu acredito no escalonamento do horário de funcionamento do comércio como uma solução mais eficaz”, pontua.

No último dia 8 a prefeitura alterou o horário de entrada e saída no trabalho de algumas atividades, incluindo o setor de serviços e de empregados domésticos, visando diminuir o fluxo de passageiros nos ônibus.

“(O ideal seria) ficar em casa isolada”

A jovem Grazielly de Souza Soares, 17, é grupo de risco para Covid-19 por ter bronquite asmática. Depois de ter o contrato de trabalho suspenso por dois meses, ela voltou a enfrentar o transporte coletivo diariamente para ir de sua casa, nas imediações do Estádio do Café, até a Gleba Palhano, onde atende em um café. “(O ideal seria) ficar em casa isolada”, diz.

Para diminuir os riscos de contaminação, ela e a mãe (babá em um condomínio também na Zona Sul) usam luvas e carregam frascos de álcool em gel nos ônibus. No trabalho, o cuidado de Grazielly também é redobrado. “Passo álcool em gel logo depois de atender um cliente ou pegar em dinheiro ou cartão, e sempre estou lavando as mãos”, detalha.

Entretanto, a jovem não vê o mesmo cuidado por parte dos moradores de seu bairro, onde sabe de duas pessoas que contraíram Covid-19. “Tem uma praça em frente à minha casa e sempre está lotada, com pessoas sem máscaras. Sem contar o vizinho fazendo festas”, lamenta.

Grazielly em sua casa: muito cuidado para evitar contaminação. Foto: Arquivo pessoal

Prefeitura anuncia multas

O prefeito Marcelo Belinati anunciou ontem regras mais severas para a fiscalização e punição a bares, estabelecimentos comerciais, imóveis e áreas de condomínios, entre outros espaços, que descumprirem as normas vigentes de enfrentamento à pandemia do novo Coronavírus. Haverá aplicação de multas, que variam de R$ 10 mil a R$ 120 mil, aos proprietários de qualquer local e pessoas responsáveis por causar aglomerações e outras infrações. As multas podem ser duplicadas em caso de reincidência.

Os estabelecimentos poderão, ainda, ser interditados por sete dias e ter até o alvará de licença suspenso, conforme a gravidade da situação. As sanções valem para aglomerações em áreas públicas e particulares, abrangendo pessoas responsáveis por eventos de lazer como festas, churrascos, reuniões familiares, jogos de futebol e outros, em casas, chácaras, áreas de prédios e condomínios fechados. As medidas também englobam ocorrências em postos de gasolina e mercados, bem como nas praças públicas, onde as atividades já estavam proibidas.

No caso de eventos em locais privados, o organizador ou proprietário do local será responsabilizado. Em áreas conjuntas de residências, verticais ou horizontais, o próprio condomínio será alvo oficial das punições. Além disso, pessoas flagradas sem máscaras protetoras em áreas públicas serão automaticamente multadas em R$ 300 e responderão a processo criminal pelo ato. Esta punição está alinhada com o artigo 268 do Código Penal brasileiro, que trata de crime contra a saúde pública, como forma de impedir a propagação de doença contagiosa.

A Guarda Municipal também passa a contar com número exclusivo de WhatsApp para denúncias: (43) 99995-0272.

(Fonte: Núcleo de Comunicação da Prefeitura)

Transitar sem máscara nas ruas vai ser passível de multa de R$ 300. Foto: Isaac Fontana

Isolamento sem testes

Rita de Cássia Barbosa, presidente da Associação de Mulheres do Vista Bela, Zona Norte, diz que nenhum caso foi atestado no local, no entanto, ela cita pessoas que procuraram a Unidade Básica de Saúde mais próxima com sintomas correlatos aos da Covid-19, foram colocadas em isolamento domiciliar, porém, sem testagem. “Pelo menos umas 60 pessoas eu soube que foi dessa forma aqui no Vista Bela. Então não tem como a gente afirmar (que não tem casos)”.

Rita lamenta que muitas pessoas não estejam cumprindo as regras de distanciamento social, que podem inibir a circulação do vírus. “Tem rodas de amigos fumando narguilé, ou fazendo festas. Está numa frequência até maior do que o normal”, comenta. Segundo ela, quem usa máscaras de proteção nas ruas é ridicularizado.

“Como não pode entrar sem máscara (nos estabelecimentos comerciais), dentro você vê, mas saiu na porta a pessoa já tira a máscara. Eu prefiro estar sendo chamada de idiota com a máscara do que daqui a pouco passar por uma UTI, ter ou não ter um atendimento. Nas periferias, que as pessoas têm menos acesso à saúde, como vai ser?”, questiona.

Rita perdeu um primo, no último mês, de forma violenta. Mesmo não sendo Covid-19, o velório de apenas duas horas foi com caixão lacrado. “No cemitério não podia entrar toda a família, (a pandemia) mexeu com a vida por completo”, afirma.

Aglomerações de crianças e adolescentes nos bairros são frequentes. Foto: Carol Avansini

UBSs vão coletar testes de Covid-19 a partir de amanhã

A partir desta quinta-feira (18) testes para Covid-19 vão começar a ser coletados em três Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Londrina: Chefe Newton, Maria Cecília e Vila Ricardo; a partir do próximo dia 23, as coletas vão começar também nas UBSs Guanabara, Bandeirantes e Ouro Branco. A medida saiu de uma reunião ontem entre a promotora de Saúde, Susana de Lacerda, o secretário de Saúde, Felippe Machado, e outros integrantes das equipes de atenção primária e epidemiologia do município.

Até o momento, apenas a UPA Sabará está fazendo a coleta de testes, desde 15 de maio. A promotora acredita que a ampliação seja benéfica à população, porém, pondera que ofertar o exame em todas as UBSs seria inviável. “Você ter coleta de exame em todas as UBS parecia ser o ideal, mas teria que ter uma estrutura que vai ficando mais complicado. Também está faltando compromisso da população com tudo isso”.

Quando uma pessoa procura uma UBS com sintomas de Covid-19, nem sempre é encaminhada para teste, uma vez que é preciso estar com a carga viral ideal, comumente entre o 5o e o 8o dias. Nesses casos, o paciente assume o compromisso de retornar para a coleta, o que nem sempre acontece.

“O ideal era conseguir fazer o controle, mas é difícil. Se tem o exame disponível na UBSs é muito mais fácil que a pessoa volte ou a pessoa da UBS identifique aquele paciente do que na UPA”, avalia a promotora.

Desde ontem a Lume tenta contato com o secretário de saúde para confirmar o início das testagens nas UBSs, sem sucesso. Na coletiva de ontem à tarde, o prefeito respondeu ao questionamento da reportagem e disse não ter conhecimento, mas que ainda se reuniria com o secretário naquele mesmo dia para atualização de informações.

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