Coordenador do ‘Policiais Antifascismo’ no Paraná é alvo da PM

Aposentado aos 29 anos, Martel Alexandre del Colle defende publicamente uma nova forma de agir por parte das forças de segurança

Nelson Bortolin

O jovem curitibano Martel Alexandre del Colle, 29 anos, coordena no Paraná o movimento “Policiais contra o fascismo”. Ele foi aposentado pela Polícia Militar no ano passado, corre o risco de perder o benefício e ainda ser preso, pois é alvo de dois processos abertos pela corporação, um administrativo e um penal. Seu crime: fazer críticas públicas à instituição.

“Basicamente, a PM alega que eu produzi textos que mancharam a imagem da corporação”, conta o jovem que nega ter sido desrespeitoso nas críticas feitas em redes sociais. “Disse coisas que precisam mudar urgentemente para termos uma polícia melhor.”

Tendo cursado três anos de academia militar, Colle é oficial e discorda do modo como os policiais são treinados. “Tem uma questão ideológica. As pessoas são treinadas como um time, uma torcida. Se você critica seu time, acham que, na verdade, você está torcendo para o outro time. E vão querer que você seja punido. Acham que a punição é devida, mas nem sabem por quê.”

Segundo o oficial, há colegas policiais que o apoiam. “Alguns abertamente, mas a maioria veladamente. Temem ser perseguidos”, explica.

A aposentadoria

A aposentadoria se deu depois que ele passou por um processo de depressão, tendo sido internado duas vezes. “Estava há uns cinco anos na polícia quando comecei a ter sintomas de depressão. A corporação é um ambiente onde há preconceito. Ouvia falar que pessoas com depressão eram preguiçosas, querem fugir do trabalho.”

Ele demorou a tomar coragem para contar a outras pessoas que não tinha mais vontade de viver. Como admitiu histórico de depressão na família, foi aposentado com benefício proporcional. A PM concluiu que a doença não guardava relação com o trabalho. “Sequer ouviram os psiquiatras que me atenderam.”

Martel Del Colle

Colle admite que o policial militar é um trabalhador com suas especificidades. “Há regulamentos que impõem limites. Por exemplo, o policial não pode participar de sindicato, não pode fazer greve.” Mas não há norma que impeça o PM de participar de associações, movimentos e nem de expressar opiniões.

Apesar disso, os PMs têm medo de emitir opiniões críticas à instituição, afirma ele. Já para divulgar temas inconstitucionais, porém comuns na corporação, se sentem bastante à vontade. “Meus textos eram fortes, mas não falavam de fechar o STF (Supremo Tribunal Federal), não falavam de golpe militar”, compara.

Ele afirma desconhecer sindicância aberta para investigar policiais que defendem ideias autoritárias e até mesmo fascistas. “Não conheço nenhum que tenha respondido um processo por causa disso.”

Recentemente, o jovem visitou a página de um colega no Facebook e leu vários comentários ilegais. “Defende coisas como matar pessoas que roubam. Diz que bandido morto gera paz.” E ainda ameaçava ministros do Supremo.

Questionado se teme por sua integridade física, o PM nega. “A Polícia me ensinou várias coisas. Você passa por muitas ocorrências difíceis. Hoje sei que meu maior medo é de não poder me expressar.”

Polícia de governo

Uma das coisas que incomoda o jovem é a corporação se colocar a serviço de governantes. “A Polícia deve fazer política de Estado e não de governo.” Ele lembra de uma cena que presenciou quando estava na ativa.

O ex-governador Beto Richa (PSDB) estava em uma escola lançando um programa governamental. Durante a solenidade, manifestantes distribuíam panfletos com críticas a ele. “Os oficiais determinaram aos soldados que pegassem os folhetos das mãos das crianças. A função da Polícia não é cuidar da imagem do governador”, critica.

A desmilitarização da Polícia, na visão do jovem, é importante, mas não uma “panaceia”. “Não é a solução para todos os problemas, mas permitiria a abertura da instituição para a sociedade. Nosso grande problema é que a polícia é mantida como órgão fora da sociedade.”

Policiais Antifascismo

Contra o fascismo

Desde o ano passado, Martel Alexandre del Colle coordena o movimento de agentes de segurança contra o fascismo no Paraná, um grupo de 77 pessoas atualmente. Além de PMs, participam policiais civis, trabalhadores de carceragem e guardas municipais. “O movimento procura abraçar todas as forças de segurança do País: da ativa, reformados ou da reserva.”

O oficial diz que o coletivo luta “para que haja garantias democráticas para a sociedade e também para o servidor em segurança pública”.

No Paraná, há núcleos do movimento em Curitiba, no Litoral, em Foz do Iguaçu e Maringá. “Nacionalmente estamos em quase todos os Estados.”

Veja entrevista no vídeo:

O que diz a PM

Por meio da assessoria de imprensa, a Corregedoria Geral da Polícia Militar do Paraná disse à Lume que o “oficial em questão foi reformado por invalidez proporcional, devido à conclusão de uma sindicância interna aberta para apurar a existência de indisciplina e cometimento de crime militar por ele”.

Segundo a nota, após a “conclusão da documentação, chegou-se à decisão de reforma da praça especial”. “A partir daí, ainda devido à conclusão, foi aberto um processo administrativo (Conselho de Disciplina) que tem como finalidade apontar a capacidade de permanência dele nas fileiras da corporação, ou não. Este conselho está apurando todos os fatos apontados e ainda está em andamento.”

A assessoria sustenta que Sindicância Policial Militar apurou a divulgação de pelo menos 11 textos, com imputações graves contra a instituição, bem como em desfavor de autoridades civis constituídas. “As ações da praça especial desmerecem os militares estaduais como um todo, bem como suas ações, além de infringir o Código de Ética e regulamento da Corporação, maculando o prestígio da Polícia Militar do Paraná perante a sociedade.”

A nota alega ainda que o jovem incita outros policiais militares a desrespeitarem seus superiores hierárquicos.

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