Grupos de extrema direita convocam para confronto com Marcha Antifascista em Londrina

Mensagens em redes sociais falam em conter antifas e conclamam integrantes do setor Judiciário e da Segurança a comparecerem armados ao ato no próximo domingo

Atualizada em 06/06 para inclusão da nota da CHD/OAB

Cecília França
Nelson Bortolin

Circulam em grupos de WhatsApp ligados à extrema direita em Londrina chamados para confronto com participantes da Marcha Antifascista, marcada para acontecer no próximo domingo (7). As mensagens às quais a Lume teve acesso ainda incitam integrantes a comparecerem armados – são citados, textualmente, juízes, promotores e policiais como potenciais portadores de armas no evento, a fim de conter os antifas, chamados de “galinha pretas”. Em tom fascista, o texto do que seria uma espécie de “convite”, acrescenta: “Não permitiremos nem pichação, a ordem é se identificar e prender em flagrante os desordeiros”.

Mensagem que circula em grupos fascistas de Londrina

A mensagem ainda alerta para a necessidade de manter o chamado em sigilo para “evitar infiltrados”. No início da tarde de ontem, a página Anonymous Londrina no Facebook também revelou prints de conversas de um grupo de WhatsApp intitulado Anti-baderna Londrina. A postagem mostra uma convocação do contato “Prf Santão Facho” para a gravação de um vídeo com o intuito de intimidar os manifestantes antes da Marcha.

“Vamos convocar os lutadores, jiujiteiros, policiais, empresários, todo mundo!!!!!”, diz a mensagem. Os interlocutores ainda discutem o ponto de encontro para a gravação do vídeo e o grito de guerra que seria usado. “O grito de guerra pode ser: esperamos vocês aqui!!! Brasil!!! Não recuaremos nem um passo!!!”, sugere o “Prf…”.

Um dos envolvidos na organização da Marcha Antifascista abandonou ontem o posto por medo de intimidação. À Lume ele afirma ter sido informado de que sua foto e dados pessoas circulam em grupos de policiais e forças de segurança da cidade como suposto “alvo” durante o evento. Temeroso, prefere não se identificar. “Me retirei para me poupar”, afirma. Ele se mostra indignado com a criminalização prévia dos antifas, já que – lembra – não houve as mesmas reações quando manifestações pró-governo ocorreram na cidade, já durante a pandemia do novo Coronavírus.

“Estamos sendo tratados literalmente como bandidos, como se estivéssemos organizando uma facção criminosa”, indigna-se.

Os prints das mensagens intimidadoras dos grupos fascistas chegaram ao conhecimento da Polícia Militar e da Promotoria de Justiça. A promotora da Saúde, Direitos Humanos, Habitação e Urbanismo, Suzana de Lacerda, diz que “eventuais crimes nessas postagens vão ser apurados”. O Major Nelson Villa Junior, comandante do 5o Batalhão da Polícia Militar (5o BPM), afirma que tudo está sendo acompanhando.

“Sei de um movimento que planejava ir domingo. Mas não teve adesão do grupo como um todo. Estamos acompanhando tudo, independentemente de ideologia. Ele salientou que o papel da PM é “garantir o exercício dos direitos constitucionais por meio do policiamento ostensivo e, no caso de violação da ordem, restabelecê-la”.

Sobre a queixa de que fotos e dados pessoais de antifas estariam sendo compartilhados por policiais, o Major sugere que os intimidados procurem a Polícia Civil para registro de Boletim de Ocorrência, o que daria oficialidade à apuração. “Se há fatos assim, não são oficiais. E não há como proibir que pessoas acessem dados de redes sociais, se os titulares deixam seus perfis públicos”, alerta.

Manifestações antifascistas e antirracistas vêm acontecendo em várias cidades do País e do mundo como um eco aos protestos que ocorreram nos Estados Unidos após a morte de George Floyd, um homem negro, por um policial branco, em Minneápolis. No Brasil, a bandeira da democracia foi adicionada como uma reação aos impulsos autoritários do governo Jair Bolsonaro.

Direito Constitucional

Carlos Enrique Santana, representante do Movimento Nacional dos Direitos Humanos (MNDH) em Londrina, soube das denúncias de ameaças e lembra que o direito à manifestação é livre no Brasil e não pode ser criminalizado. “Quem representa o Estado brasileiro deve dar as garantias constitucionais àqueles que as têm. O que está acontecendo no Brasil é resultado de desmandos do Judiciário e das estruturas de Estado”, opina.

“Não dá para a gente agir como a polícia de São Paulo, que espancou os torcedores do Corinthians e não prendeu aquela senhora com um taco de beisebol para agredir pessoas no centro da cidade”, comenta. Santana refere-se à reação violenta da polícia aos protestos antifascistas do último fim de semana na capital paulista. Em Curitiba, protestos antirracismo e antifascismo também terminaram com depredação e confronto entre participantes e policiais, na última segunda-feira.

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina e colunista da Lume, Paula Vicente avalia que o comportamento do grupo responsável pelas mensagens intimidadoras em Londrina é “claramente fascista”.

“É bom lembrar que, na Alemanha, assim que Hitler assumiu o poder, os ‘camisas marrom’ foram os precursores da SS”, disse ela, em referência à organização paramilitar nazista. “Eles perseguiam aqueles que entendiam como indesejáveis e sumiam com eles.” A advogada ressalta que o problema de governos autoritários, como o de Bolsonaro, é que o “guarda da esquina se acha empoderado e se sente imbuído de fazer a justiça que ele entende como justiça”.

Ontem, a CDH da OAB emitiu nota oficial em que condena as ameaças, ainda que alerte para os riscos de uma manifestação neste momento. Leia na íntegra abaixo.

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