Cara gente branca

por Paula Vicente e Rafael Colli, integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina

Em nossa última coluna abordamos a necropolítica do Estado, que mata os corpos indesejáveis e busca uma limpeza étnica e estética. Dissemos, quando Ághata foi assassinada em 2019 pela mesma polícia que assassinou João Pedro no mês passado, que tais mortes são fruto do racismo estrutural que permeia nossa sociedade e, sobretudo, o Estado.

Mas não é apenas o Brasil que sofre cotidianamente com o racismo. No último dia 25, um homem preto foi fria e violentamente assassinado por uma policial branco nos EUA. George Floyd foi sufocado até a morte diante das câmeras. Sua morte causou uma reação não vista desde o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968. Protestos eclodiram pelo país e pelo mundo, em um grito contra a violência policial e contra o racismo.

Muito se fala de racismo estrutural, machismo estrutural, afinal, são estruturais por serem intrínsecos a todas as estruturas estatais que nos cercam. São praticados pelo sistema como um todo e não apenas pelas pessoas, que muitas vezes são engolidas pela estrutura e não percebem seus privilégios.

Hoje, portanto, decidimos falar sobre privilégios e sobre como nossa sociedade foi construída sobre tais privilégios.

Para começarmos esta conversa, temos que entender nosso local de fala, afinal, somos duas pessoas brancas, jamais poderemos falar do racismo do local de quem sofre diuturnamente com isso, portanto, para entendermos esse mal, vamos falar do local de privilégio que ocupamos e para aqueles que ocupam o mesmo local que nós, hoje vamos falar com a branquitude.

A palavra privilégio costuma ser rechaçada pela esmagadora maioria dos privilegiados, vez que, não os reconhecendo, acreditam que estão onde estão apenas porque mereceram e que o mundo que os permeia não tem qualquer influência sobre sua trajetória. O que queremos mostrar aqui é que o privilégio não faz com que o caminho seja límpido e sem obstáculos, quer dizer apenas que ele não foi dificultado ou inviabilizado pela cor da sua pele.

Quantas vezes você foi abordado violentamente pela polícia? Quantas vezes foi seguido pelo segurança de um supermercado ou do shopping enquanto fazia compras? Quantas vezes foi confundido com a faxineira do hotel ou o porteiro do prédio? Quantas vezes perguntaram se você é a babá de seu filho branco? Em quantas entrevistas de emprego disseram que seu cabelo é inadequado ou que você não atende ao perfil da vaga, apenas ao olhar pra você? Quantas vezes teve que aceitar um emprego claramente inferior à sua capacitação por que não contratam pessoas da sua cor para cargos de chefia? Quantas vezes você entrou no seu trabalho ou em sua faculdade e não se reconheceu entre seus amigos? Quantas vezes você foi o único branco em um universo profissional ou estudantil? Quantas vezes foi preso acusado de roubo enquanto fazia cooper pela cidade? Quantas vezes foi preso por se exaltar com a demora do atendimento em seu banco? Quantas vezes o gerente de seu banco chamou a polícia por sua conta receber um depósito de R$ 1.500 por ser dinheiro demais para alguém como você? Quantas vezes você foi morto por apenas estar andando de carro em seu bairro? Quantas vezes você foi morto em casa, brincando?

Os obstáculos e empecilhos não são colocados por nós, os privilegiados, são colocados pela estrutura de uma sociedade construída sobre tais privilégios, mas para que eles sejam removidos é necessário que abramos mão deles, já que, para alguém ser privilegiado alguém está sendo oprimido.

Acontece que abrir mão de privilégios não é algo assim tão simples, primeiro por que não é apenas querer deixá-los de lado que faz com que isso seja possível. Nós, brancos e de classe média, não passaremos a ter nossa vida dificultada ou a sociedade passará a nos tratar diferente, os privilégios só acabam com luta.

Portanto, para sermos bons aliados nessa luta antirracismo, temos que aprender a usar nosso privilégios em favor da luta. Como? Questione, por exemplo, quantas pessoas pretas trabalham em sua empresa em um cargo que não seja de servidão. Questione organizadores de um evento sobre o por quê de não haver palestrantes ou debatedores pretos entre os convidados. Repreenda aquele seu amigo íntimo quando ele fizer uma piadinha racista ou um comentário preconceituoso na mesa do bar. Se coloque entre o policial e o jovem preto que vai apanhar apenas por ser preto.

Esses são pequenos passos na luta.

Mas temos que entender também que toda reação daqueles que foram subjugados durante séculos é válida e não pode ser confundia com a violência do opressor. A luta precisa chocar para avançar, precisa causar reflexão e ruptura. Ruptura. Hashtags e textões não fazem a revolução que nossa sociedade precisa para evoluir e superar o racismo, que deve ser destruído e não debatido, assim como o fascismo (mas esse é assunto para a próxima coluna).

Portanto, terminamos com dois artistas pretos brasileiros. Primeiro, Baco Exu do Blues, para entendermos como o racismo desvirtua a cultura, tomando para si tudo que é preto:

“Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos/ O primeiro ritmo que tornou pretos livres/ Anel no dedo em cada um dos cinco/ Vento na minha cara, eu me sinto vivo/ A partir de agora considero tudo blues/ O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues/ O funk é blues, o soul é blues, eu sou Exu do Blues/ Tudo que quando era preto era do demônio/ E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues/ É isso, entenda/ Jesus é blues”

(EXU DO BLUES, Baco. Bluesman. 2018)

E por fim, Djonga, para que saibamos o que fazer agora que a hora da revolução chegou:

“Sensacional/ E sensação, sensacional/ Sensação, sensacional/ Firma, firma, firma/ FOGO NOS RACISTAS”

(DJONGA, Olho de Tigre. 2017)

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