‘Exposed Londrina’ evidencia imensa subnotificação de crimes sexuais

Encorajadas por movimento nas redes sociais, jovens e adolescentes falam pela primeira vez sobre violências sofridas

Cecília França

Na última semana, relatos de violência sexual contra mulheres de Londrina inundaram a rede social Twitter. Usando a #ExposedLondrina, adolescentes e jovens expuseram casos de estupro, assédio, importunação sexual e pornografia de vingança, quase sempre de forma anônima. O movimento, que, no Paraná, começou por Curitiba e já alcançou cidades do interior, evidencia a imensa subnotificação dos casos de crimes sexuais.

Até ontem a hashtag já havia sido usado mais de 20 mil vezes no Twitter. No Instagram, a conta de mesmo nome, mas sem ligação com a original, acumulava quase 10 mil seguidores em apenas quatro dias. Tanto a Delegacia da Mulher de Londrina quanto o Nucria (Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes) compartilharam postagens em que utilizam a hashtag.

Frases como “Não falei isso pra ninguém até hoje”, “Não sei como estou tendo coragem de contar”, “A minha família não sabe”, “Jurava que a culpa era minha” são recorrentes em muitos relatos. Para a Delegada da Mulher em Londrina, Magda Hofstaetter, a enxurrada de adesões comprova a subnotificação desses crimes, que ela classifica como “gigantesca”.

“Chega somente a 35% de denúncias, principalmente por medo do que as pessoas vão falar. Quando envolve relacionamentos ainda tem a questão das dependências emocional e financeira”, lembra ela.

A última Pesquisa Nacional de Vitimização, de 2013, revelou um índice ainda mais assombroso de apenas 7,5% de notificações de casos de violência sexual à polícia. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, “os crimes sexuais estão entre aqueles com as menores taxas de notificação à polícia”.

Continua o documento: “Os motivos para a baixa notificação são os mesmos em diferentes países: medo de retaliação por parte do agressor, medo do julgamento a que a vítima será exposta após a denúncia, descrédito nas instituições e segurança pública, dentre outros.”

Postagem do Nucria no Instagram

Idade das vítimas

Chama a atenção no Exposed Londrina a idade das mulheres denunciantes – adolescentes, em sua maioria, o que pode ser explicado, em parte, pela plataforma usada para a denúncia. Muitas relatam abusos sofridos na infância e que nunca foram investigados; outras, relacionamentos abusivos e, ainda, constrangimentos em locais públicos. Muitos casos apontam como agressor outro adolescente. Para a delegada da Mulher, proporcionar educação sexual nas escolas seria uma forma importante de minimizar a ocorrência desses crimes.

“Temos um problema cultural. A sociedade precisa parar de culpabilizar a vítima e avaliar o comportamento do agressor. E colocar sempre a igualdade entre os gêneros. Precisa ser mais discutido nas escolas a educação sexual. Tem que falar com os meninos também, porque eles crescem vendo isso na TV, na internet, ninguém fala que é errado”, pondera.

Acordei e senti minha calcinha molhada. Era gozo. Não meu, mas dele

Trecho do relato de Maria Júlia, 18, vítima de estupro aos 17

Maria Júlia Lemos, 18, relatou no Twitter o estupro que sofreu do namorado quando tinha 17 anos. Ela fez questão de não esconder sua identidade e, mesmo preservando a do agressor, sabe que muitos poderão identificá-lo pelo relato. Lemos pode contar com uma mãe empática que a incentivou a denunciar a violência na época, mas, mesmo assim, optou por não levar o caso adiante.

“Minha mãe queria que eu denunciasse, mas, na época, eu só queria esquecer, e eu desisti, porque as provas que eu tinha eu me livrei, porque eu só queria esquecer o que tinha acontecido. No fundo eu sabia que não iria acontecer nada com ele e poderia ser pior pra mim, na verdade”, diz

Lemos foi violentada enquanto dormia, o que configura estupro de vulnerável, previsto no Código Penal e passível de pena de reclusão de quatro a dez anos. A decisão de não denunciar formalmente, além de fatores emocionais, envolve uma descrença nos resultados da Justiça.

“Eu vejo programas de TV com vários casos assim e a maioria não vai pra frente justamente por que a vítima não tinha provas suficientes ou porque o abusador revertia a situação. Eu sabia que no meu caso eles não iriam fazer nada, no máximo uma ordem de restrição, mas nem isso eu achava que seria possível”, afirma.

A jovem viu no Exposed Londrina uma forma de apoio para sua dor e acredita que o movimento pode alertar muitas garotas. 

“Isso serviu pra todo mundo ver o que quase toda mulher e menina já passou, seja com homens da família, amigos, conhecidos, desconhecidos e até homens famosos daqui de Londrina. Foi um começo para todas nós ficarmos atentas com quem nos relacionamos, tanto de amizade quanto de namoro, e ficarem cientes que isso acontece muito mais do que a gente imagina”, acredita.

Confira abaixo o relato da jovem postado no Twitter.

Represamento

Casos como o de Lemos, quando denunciados, ficam a cargo do Nucria, uma vez que ela era menor de 18 anos na ocasião. Hoje o órgão acumula 1.500 investigações em andamento. Há casos de 2011 ainda sem conclusão. Somente este ano, até 29 de abril, 143 novas investigações foram abertas.

A delegada do Nucria, Livia Pini, diz que os relatos feitos nas redes sociais poderiam desencadear uma investigação, no entanto, o grande volume inviabiliza.

“Em razão da grande quantidade, estamos orientando que as vítimas procurem a delegacia diretamente ou via disque 100 ou disque 180”. Na visão da delegada, o apoio familiar é essencial para que a denúncia se viabilize.

“A gente tem inúmeros casos em que houve demora na denúncia pelo parente não ter acreditado e muitos em que a vítima alterou o seu relato por pressão familiar. A criança não tem estrutura para levar uma denúncia dessa sozinha”, explica.

Sequelas

A psicóloga Natália Mendes Ferrer considera o suporte familiar como primordial para que as vítimas quebrem o ciclo de violência que, na maioria das vezes, está dentro de casa ou vindo de alguém muito próximo. “Tal suporte permitirá que a vítima se sinta validada, encorajada e protegida”, avalia.

Ferrer classifica a violência sexual como um “estressor generalizado”, uma vivência traumática que produz como consequências sintomas de depressão, quadros fóbico-ansiosos, obsessivo-compulsivo, distúrbios do sono, aprendizagem e alimentação, insegurança, medo, raiva, culpa, vergonha, sentimentos de rejeição, conflitos e desconforto nas relações afetivas e/ou íntimas.

“Quando a vítima é criança ou adolescente os efeitos podem ser devastadores, já que, dependendo da idade, ela não possui independência emocional e maturidade para consentir qualquer tipo de contato de natureza sexual”, alerta. Os efeitos da violência podem se manifestar de várias maneiras, em qualquer idade da vida, de acordo com a profissional.

“Alguns podem sentir que o seu corpo está sujo, problemas de sono, pesadelos e terrores noturnos. E, também, comportamentos-problema, como agir de modo agressivo, ataques de raiva, comportamentos de birra, conflitos com cuidadores e/ou professores, bem como apresentar choro e medo de pessoas ou lugares”, finaliza.

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