Covid-19: HU de Londrina integra pesquisa que pode encerrar dúvidas sobre a eficácia (ou não) da hidroxicloroquina

Hospital participa de estudo liderado por grandes instituições de saúde do País; resultados prometem encerrar debate sobre o uso da medicação

Cecília França

O Hospital Universitário (HU) de Londrina integra uma pesquisa nacional que pode encerrar as dúvidas sobre a eficácia ou não da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. O estudo é uma iniciativa do grupo Coalizão Covid Brasil, que recrutou cerca de 60 instituições hospitalares pelo País em tempo recorde. No HU, os processos de adesão e tratamento levaram apenas dois meses e os dez pacientes participantes já receberam alta.

A Coalizão Brasil é composta por Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa de São Paulo e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet). Os resultados devem ser divulgados em breve, ainda sem data definida.

A médica intensivista Cíntia Grion, que liderou a pesquisa no HU, explica que o tratamento padrão oferecido aos pacientes com Covid-19, chamado de terapia de suporte, consiste em amenizar a insuficiência respiratória com uso de oxigênio; uso de medicamento antimicrobiano; tratamento para Influenza e suporte nutricional. Todos os envolvidos na pesquisa foram tratados normalmente com esta terapia de suporte e, a eles, foi adicionada a terapia antiviral.

“Na teoria, essas medicações são prescritas para eliminar o vírus do organismo – não está comprovado se realmente acontece, existem algumas evidências que mostram que sim, outras que mostram que o efeito adverso é preocupante”, ressalta Grion.

No último dia 15, o estudo passou pela segunda avaliação do comitê independente de segurança, composto por cientistas da Nova Zelândia e da Austrália, cuja recomendação foi seguir com a pesquisa. Os resultados devem ser compilados nas próximas semanas.

A médica conta que os participantes da pesquisa assinaram termo de consentimento, um procedimento padrão, e a taxa de aceite foi em torno de 90%. Antes de assinar, todos eram informados, também, que poderiam cair no grupo de controle e não usar a medicação. Grion explica que, para esta pesquisa, não houve tempo hábil para a produção de um placebo. Ela destaca a agilidade com que os hospitais participantes propiciaram o estudo.

A médica Cíntia Grion, intensivista no HU de Londrina. Foto: Reprodução TV UEL

“Mesmo numa fase de teste clínico, geralmente leva-se um ano inserindo pacientes e a gente conseguiu inserir todos em dois meses. O Brasil, em termos de pesquisa colaborativa clínica, vai dar exemplo para o mundo. Somos um País grande, temos pesquisadores capacitados em todo o território nacional, e essa pesquisa é bem delineada, sólida, capaz de dar uma resposta”, acredita.

Opinião de expert
Para a médica do HU buscar evidências científicas é essencial para validar ou refutar a opinião do especialista, ou “opinião de expert”, baseada na percepção dos médicos durante atendimento. No caso da hidroxicloroquina, o resultado da pesquisa pode, ainda, ajudar a encerrar uma verdadeira queda de braço entre o próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro – defensor do uso da medicação – e grande parte da comunidade científica, que se opõe à liberação antes de pesquisas sólidas.

“Muitas vezes a nossa percepção, enquanto profissionais, nos engana. Às vezes a gente tem a percepção de que uma medicação vai curar porque funcionou com um paciente, mas, quando replica isso para 100, 1000 pacientes, não se comprova. As primeiras evidências sempre são estudos de observação clínica, mas a resposta definitiva tem que ser com um grupo que não usou a medicação”, explica Grion.

Na percepção da médica, que ela esclarece ser pessoal, a hidroxicloroquina não beneficiou os pacientes pesquisados no HU. “Aqui na mostra em Londrina parece não ter feito diferença, não conseguimos detectar. Mas a minha percepção não pode ser considerada evidência científica”, reitera.

Outras medicações
A hidroxicloroquina é apenas uma das medicações testadas na pesquisa da Coalizão Covid Brasil. Os testes foram divididos em três grupos simultâneos: Coalizão I envolve pacientes de menor gravidade internados por Covid-19. Nestes está sendo avaliada a eficácia da hidroxicloroquina em melhorar o quadro respiratório. Também é verificado se adicionar o medicamento azitromicina, que pode potencializar a ação da hidroxicloroquina, traz efeito benéfico adicional.

A Coalizão II envolve casos mais graves, que necessitam de maior suporte respiratório. Estes pacientes receberam a hidroxicloroquina com o objetivo de verificar se a azitromicina tem efeito benéfico adicional, com potencial de melhorar os problemas respiratórios causados pelo novo Coronavírus.

O terceiro estudo, Coalizão III, avalia a efetividade da dexametasona, uma medicação com ação anti-inflamatória, para pacientes com insuficiência respiratória grave, que necessitam de suporte de aparelhos (ventilador mecânico) para respirar.

“A equipe que está redigindo o artigo é super ágil, mas depende também da revista (científica, na qual o estudo deverá ser publicado). Nós contribuímos com 10 pacientes; no Brasil todo vão ser 1.100 pessoas. É o maior estudo até hoje nesse desenho randomizado”, conta a médica de Londrina.

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