Amor, morte e Psyque. Erotismo, sexo e razão. “Esta noite realizarei não o seu, mas o meu desejo”

por Melissa Campus, atriz e produtora cultural londrinense, atualmente morando em Milão (Itália)

Primeiramente quero agradecer esta oportunidade e a cada leitor deste Diário Trans. Tenho pensado em como poderei me expressar genuinamente e realizar este trabalho, criar uma identidade própria, surpreender as expectativas.

Pensei em iniciar esta coluna com uma refinada introdução, escrevendo sobre minhas griffes famosas, sonhos, sobre política, turismo, maquiagens, várias superficialidades e outros “Closes Furados”. Porém, hoje sou sua colunista, decidirei escrever um pouco sobre tudo, “depende do dia” , “depende da hora” , “depende da fantasia”.

Eis a minha questão. Como a maioria de minha população travesti não tive acesso a uma boa educação (95% das travestis brasileiras ainda vivem da prostituição), mas eu aceitei este desafio, orgulhosa de mais uma vez ter a chance de vivenciar mais uma oportunidade e me superar.

Minha grande amiga Christiane Lemes me perguntou, quando fundamos o Elitytrans Londrina: “Será que a sociedade quer ouvir o que temos a dizer?” Particularmente esta pergunta se tornou, para mim, existencial.

Eis o desafio. Meu corpo é um mecanismo poético e isso me excita muito. Romper as barreiras das impossibilidades, pensar e criar acessos jamais pensados e criados pelos grandes pensadores e criadores.

Aqui em Milão é o lugar onde tudo pode acontecer, até mesmo um cataclisma viral como a Covid-19, e mesmo durante o período de block, sempre alguém me procurava, meu telefone me chama 24h por dia sem me deixar dormir uma noite tranquila. Posso, com segurança, afirmar que “Não existe crise para afetar a profissão mais antiga do mundo”.

Neste momento, enquanto escrevo este depoimento, meu telefone chama incansavelmente. Eu amo, mas também odeio. Neste momento posso estar perdendo uma grande oportunidade, afinal, Milão é a cidade onde todos os sonhos, pesadelos, contos de fadas e maldições podem se realizar.

Mas confesso que prefiro o silencio da solidão para escrever minhas histórias e pensamentos mais pervertidos. Qual sera meu prejuízo por não atender o telefone? Não importa, pois algumas oportunidades são inestimáveis na vida.

Em tempos de Covid-19 os valores são outros.

Aqui em Milão sou um objeto de desejo extra-cotidiano. Sou sempre sorridente, às vezes falsamente; belíssima por natureza, consciente deste rótulo e disponibilíssima para aqueles que podem pagar o meu preço para realizar aquelas perversões tradicionais quase impossíveis.

Esta noite quero falar de amor, ódio e morte.

Amor próprio, acima de tudo e todos, ódio por aqueles que me subestimam, que tentam de alguma forma me explorar ou escravizar-me.

Às vezes me sinto no céu e outras no inferno, mas no fundo sou apenas um corpo intenso e radical.

Aqui em Milão, na zona vermelha, me tornei Dama da Resistência à Covid-19, ao medo do desconhecido e às insanidades mentais, pois não basta manter o corpo saudável se a mente adoece.

Sou “Rainha Chanelly“, máquina poética, máquina de sexo, máquina de guerra, minha mais nova criação, personagem das fantasias eróticas de cada dia. Mas acredite, é apenas mais uma performance.

EROS
Representado por asas, arco e flexa, o Deus grego guerreiro do amor sexual, representa o Desejo. “Quando Eros me encontra acende o meu desejo.” Quando dois amantes se encontram por Eros desejam a fusão da Alma e dos corpos em um corpo apenas. Quando este corpo em fusão atinge o orgasmo, a individualidade morre e resta apenas o prazer que une os dois corpos em um corpo só.
THANATO
O Deus grego da morte e da violência em certo ponto foi acorrentado e aprisionado por SÍSIFO, mas nas guerras os guerreiros não encontravam a morte. ARES, o Deus da guerra, a um certo ponto aprisiona SÍSIFO e liberta THANATO, então os guerreiros reencontram a própria morte.

PSYCHE
O respiro dentro de nós, o último Suspiro da alma vital. Os gregos (nos séculos V, VI e VII) eram um povo primitivo e violento, não acreditavam um uma alma imortal. Para os gregos a morte acontecia quando o corpo dava seu último suspiro, era quando PSYCHE abandonava o corpo.

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