A política da morte não para, nem mesmo diante da morte

por Paula Vicente e Rafael Colli, integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina

“GENTE PELO AMOR DE DEUS ME AJUDEM ESSE É O MEU PRIMO JOÃO PEDRO MATOS PINTO TEM 14 ANOS E ESTAVA HOJE POR VOLTA DAS 16h EM CASA NA (PRAIA DA LUZ) SÃO GONÇALO RJ EM UMA OPERAÇÃO DA POLÍCIA OS TRAFICANTES ENTRARAM NA CASA E OS POLICIAIS SAÍRAM ATIRANDO E ATINGIU ELE NA BARRIGA” (sic).

No dia 18 de maio de 2020, segunda-feira, o Brasil registrou a triste marca de 1179 mortes por Covid-19. Enquanto isso, o Presidente fazia live com piadinhas e o Congresso articulava a votação do adiamento do Enem, já que o Governo Federal parece que não se importa com os efeitos nefastos da crise da pandemia do coronavírus.

Mais de mil mortes em um único dia. Era para estarmos desolados. Era para as instituições públicas estarem todas focadas em como vencer essa crise de saúde sem precedentes.

Mas parece que a necropolítica aprimorada pelos governos atuais, todos surfistas da onda Bolsonaro, não descansa nem mesmo quando deparada com seu reflexo mais cruel.

No Rio de Janeiro, principal palco da política sanguinária do “bandido bom é bandido morto”, a polícia, que deveria ser uma das Instituições mais importantes e presentes no combate à pandemia, mais uma vez cumpriu o papel instrumental e maquiavélico que a Elite lhe deu: de matar gente preta, pobre e favelada; de “equilibrar” a estética social; de higienizar a cidade dita maravilhosa.

A polícia, mais uma vez, serviu de carrasco para aqueles que dominam o capital, as vagas de emprego e a produção e comercialização de sonhos e ilusões, e pior, legitimado e comandado pela mais poderosa superestrutura da Sociedade, o Estado.

João Pedro tinha 14 anos de idade e como todo garoto gostava de brincar, de jogos de celular e sonhava em ser advogado. João Pedro teve seus sonhos e sua vida interrompidos por uma ação da Polícia na Comunidade que morava, ação esta que gostaríamos de chamar de desastrosa, mas que, infelizmente, é apenas mais uma ação ordinária e rotineira desta que é a polícia que mais mata no mundo.

João Pedro brincava com amigos perto de sua casa, quando policiais chegaram escorraçando todos em seu caminho. João Pedro e seus amigos rapidamente adentraram em sua casa, buscando refúgio, mas parece que para os soldados da necropolítica não existem paredes nem muros na favela, muito menos casas. Os policiais entraram atirando para todos os lados chegando ao absurdo de fazer uso de granadas – DENTRO DA CASA do garoto. O menino de 14 anos foi atingido na barriga. Depois de um parente tentar de tudo para que João Pedro fosse atendido, os policiais, seguindo o modus operandi aprendido com a ditadura militar, simplesmente pegaram o corpo do menino e de lá sumiram – quem não se lembra do caso Amarildo?. Foi somente depois de uma onda de questionamentos na internet, inclusive de celebridades tocadas com o caso, que o corpo foi “aparecer” no IML, no dia seguinte.

A polícia tentou legitimar toda a operação assassina, dizendo que armas e drogas foram apreendidas, como se tivessem “salvado o dia”.

Mas a apreensão das armas e drogas, que, ressalta-se, somente entram nas favelas pela conivência de parcela do Estado, às vezes da própria polícia, não irão trazer João Pedro de volta e, certamente, não irão proteger outros Joãos Pedros.

O medíocre resultado da operação, por outro lado, não traz qualquer benefício à Comunidade quanto ao combate do coronavírus, que cada vez mais assola as comunidades carentes do país. Pelo contrário, apenas leva mais risco de contaminação para toda a população.

De um lado, o Governo do Estado do Rio de Janeiro luta incessantemente contra o coronavírus, que até a finalização desta coluna ceifou a vida de mais de 3000 fluminenses; de outro, lança tresloucadamente agentes em comunidades carentes, pondo em risco milhares de famílias, e mata, sistematicamente, indesejáveis ou descartáveis. Pelo menos assim, poderia pensar algum membro do Governo, uma pessoa a menos na fila de leitos.

Nem mesmo as milhares de vidas perdidas pela pandemia do coronavírus fizeram a política da morte frear seus serviços.

E assim, João Pedro se junta a Aghata, a Amarildo, a Evaldo, todos assassinados pelo Estado, todos pessoas pretas, que não devem ser esquecidas em números e estatísticas, por isso seguiremos dizendo seus nomes, lembrando de seus assassinatos e lutando para que o extermínio da população preta chegue ao fim.

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