Coronavírus: brasileiros relatam experiências com a pandemia no exterior – Taís Renck, Espanha

Brasileira enfrentou a fase mais crítica da Covid-19 em Madri e defenda medidas de distanciamento social: “Talvez seja o sacrifício da nossa geração”

Cecília França

Há pouco mais de uma semana a brasileira Taís Renck Maciel, 38, voltou a fazer passeios, com limitação de uma hora, pela rua, sozinha ou acompanhada dos filhos gêmeos de 5 anos. Os passeios têm servido para arejar a rotina após o confinamento ostensivo iniciado em 15 de março em Madri, capital da Espanha, para conter o avanço do novo Coronavírus. Mas as “liberdades” ainda são poucas. Apesar de a Espanha ter iniciado nesta semana o que chama de Fase 1 do desconfinamento, grandes cidades, como a capital, permanecem na Fase 0.

“Para mim, de fato, não houve mudança. Disseram que para a gente mudar de fase precisa alcançar alguns critérios, que não estão muito claros para a população em geral, mas basicamente é ter leitos disponíveis nas UTIs, ter equipamentos de proteção para os profissionais da saúde e serviços essenciais, principalmente médico de família”, explica Taís.

A Espanha é o segundo país do mundo em número de contaminações por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, e o quarto em óbitos. Até ontem eram 26.920 mortes e 228 mil infecções. Taís confessa que não tem assistido muito aos noticiários: “Estava afetando muito o meu emocional”, explica.

Os filhos também não passaram ilesos à tensão enfrentada. “Eles estão mais sensíveis. Não entendem tudo o que está acontecendo. Há duas semanas, minha filha me disse que não tinha amigos, que estava triste. Tive que explicar que ela tinha muitos amigos, que só não poderia vê-los agora”, conta.

Para esta gaúcha de coração baiano, uma série de fatores explica o avanço exponencial da Covid-19 no país, dentre eles, características culturais. Em conversa com a Lume ela detalha seu posicionamento, relata as dificuldades vividas e faz um apelo aos brasileiros:

“Se tiver que trabalhar, por favor, tome muito cuidado, leve a sério. Faça o possível para evitar o contato social pelo menos nas suas horas de descanso. Sei que culturalmente é difícil, e que muitas vezes parece mais um sacrifício. E é. É o sacrifício da nossa geração, talvez”.

Leia depoimento completo:

“O governo espanhol, assim como o de vários outros países, não soube antever o impacto do vírus no país. E ao menosprezar a situação, o controle real de entrada e circulação do vírus no país já começou a ser feito tarde. Hoje já sabemos que o vírus tinha chegado à Espanha muito antes do que o governo tinha comunicado no início do lockdown, por exemplo. 

Outro fator que acho que contribuiu e que é mais específico da Espanha e da Itália, é a cultura local. Eles cumprimentam, beijam e abraçam como nós, brasileiros. O espaço pessoal é muito mais curto; as pessoas se aproximam mais umas das outras para falar. Se fala alto, gesticulamos, tocamos. Todos esses comportamentos propiciam mais contaminação. Além do mais, mesmo no inverno, como o clima é mais ameno que em outros países europeus, a vida é muito vibrante aqui. Se socializa muito mais que em outros países europeus.

Taís em um bar, no ano passado: “Quando ainda éramos livres”

Bom, meus filhos estão sem aula e eu estou trabalhando de casa. Por sorte, trabalho em uma empresa de tecnologia e ela já estava preparada estruturalmente para funcionar assim. Mas trabalhar com as crianças em casa é difícil. Elas estão mais sensíveis. Não entendem tudo o que está acontecendo. Há duas semanas, minha filha me disse que não tinha amigos, que estava triste. Tive que explicar que ela tinha muitos amigos, que só não poderia vê-los agora. Isso é o impacto na dinâmica da casa. Graças à Deus tenho alguém que me ajude, porque como não tenho família aqui, seria muito difícil conciliar tudo. Sem ela estaria perdida – aqui na Espanha permitiram que as pessoas que cuidam de menores e/ou dependentes pudessem continuar trabalhando; foi considerado um serviço essencial.

Outro impacto na rotina é preparar as saídas de casa. Tenho até preguiça de sair: é luva, é máscara, é separar um sapato especial para sair, calçá-lo só na porta… Logo, para ir no supermercado, tem limitação no aforo (capacidade), então começou a ter muita fila para entrar. Tem que ir com tempo. Eu vou no horário de almoço espanhol (14h) porque costuma ter menos gente. Mesmo assim, na última vez peguei meia hora de fila pra entrar. Depois tem as filas para pagar. Só podemos colocar nossos itens na esteira de pagamento depois que o cliente anterior pagou e saiu. Então o processo demora muito.

O que está acontecendo é uma mudança para comprar mais nas lojas de bairro, poucas coisas, mais vezes por semana. Para fazer compra grande, você pode ficar tranquilamente umas 3h para completar todo um processo. Outra coisa que aconteceu é que deixei de pedir comida delivery, para evitar a circulação de pessoas. Agora cozinho mais. E minhas compras online, tento fazê-las todas juntas, numa única loja, numa única entrega, para também evitar a circulação de pessoas.

Saio de máscara, sempre. E luvas sempre que vou interagir com as pessoas (supermercado e farmácia, por exemplo). Aqui ainda estamos com restrição obrigatória de saída; sob pena de multas altas em caso de descumprimento e com controle via policiamento extensivo. Só podemos sair para comprar mantimentos, passear animais de estimação, consultas a médico/dentista, cuidar a menores e dependentes e quem trabalha em serviço essencial. Há duas semanas liberaram passeios de 1h por dia com as crianças e há quatro dias liberaram os adultos a passearem ou praticarem esporte por 1h ao dia. Tem diferentes faixas horárias para diferentes públicos e, assim, evitar aglomerações ou mesclar população de risco com outras que contagiam mais. O governo espanhol já tem planejado iniciar o desconfinamento a partir deste fim de semana, mas não será igualitário para todo o país. Dependerá da evolução de cada região.

Tenho amigos e colegas de trabalho que foram contaminados. Eu acredito que minha família também já teve o vírus, só que foi num momento que ainda não sabíamos que estava circulando. Os meus filhos e o pai deles tiveram algum sintoma. Nada muito grave. Dor de garganta, dor de cabeça e no corpo. Febre. Mas não evoluiu. Eu não tive sintomas. Mas imagino que se as crianças tiveram, eu também peguei. Só que como não há teste suficiente, não temos como comprová-lo de momento.

Aqui a coisa foi tão grave que eles se centraram muito nas notícias espanholas e europeias, só se menciona o Brasil quando o tema é muito relevante (por exemplo o número de mortes no Norte do país, imagens aéreas de várias covas abertas em cemitérios) ou quando a notícia é muito distoante da abordagem espanhola, como por exemplo, a postura do presidente Bolsonaro. A imagem dele é péssima aqui. Seus comentários são muito chocantes para um espanhol. Eu me informo sobre a situação do Brasil olhando diferentes sites de notícia daí. 


Quando vim morar fora, sempre pensei que se acontecesse alguma coisa, meus pais, meu irmão, poderiam vir me ajudar. Nunca pude imaginar uma situação em que não podemos estar juntos. Era para eles terem vindo nos visitar na Páscoa. Agora, nem sei quando poderemos nos ver novamente. E, sinceramente, a coisa aqui foi grave. Mas eu me sinto mais segura aqui pela estrutura médica e pela seriedade com que o governo tratou (uma vez entendida a gravidade do tema). Acho que temos médicos muito dedicados no Brasil, mas falta um discurso orientativo unificado, falta equipamento, falta plano de ação, na minha opinião. Ou se tem, eu não estou vendo isso ser comunicado de forma efetiva. Tenho medo porque como o isolamento não está sendo levado muito a sério, a situação possa se prolongar muito mais aí.

Graças a Deus meus parentes estão bem, com saúde, e estão com possibilidade econômica de se isolar. Isso é sorte! E infelizmente não é a realidade da maioria da população no Brasil. Então eu prefiro deixar um recado em aberto, para quem estiver lendo. Se tiver que trabalhar, por favor tome muito cuidado, leve a sério. Faça o possível para evitar o contato social pelo menos nas suas horas de descanso. Sei que culturalmente é difícil, e que muitas vezes parece mais a um sacrifício. E é. É o sacrifício da nossa geração talvez. Mesmo que você não acredite que teria um impacto grande da doença no seu corpo. Quer reativar logo a economia? Então faça a sua parte para diminuir os contágios logo e possamos voltar a nos ver, a nos abraçar e voltar a ter a alegria própria da nossa cultura de volta às ruas.”

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