Lá vem o Brasil descendo a ladeira

Por Paula Vicente e Rafael Colli, integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina

Nada mais atual e real que o saudoso Moraes Moreira e sua icônica composição “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, a nossa ladeira é longa e íngreme e o fim parece não chegar nunca. Por mais baixo que desçamos, sempre tem mais um pouquinho para afundar. As últimas semanas nos mostraram o caos em que estamos inseridos, a ameaça que nossa democracia enfrenta, o autoritarismo que corre nas veias de nossos governantes e a histeria e o ódio coletivos de nossa sociedade doente.

A demissão do Ministro da Justiça há pouco mais de dez dias e suas acusações contra o Presidente da República mostraram a todos, todas e todes, o que já sabíamos há muito tempo: Bolsonaro ataca as instituições de controle internamente e tenta interferir em investigações da Polícia Federal (pelo menos naquelas de seu interesse), como um déspota, o absolutista que gostaria de ser.

O desembarque de Moro do navio de Bolsonaro causou no ex-chefe reação, num primeiro momento, patética, com pronunciamento melodramático à nação, em que falou sobre a dor do aeroporto, aquecedores solares desligados, Queiroz, 04 namorador e, claro, Marielle. Um emaranhado de falas comuns de Jair que nada mostraram senão o ódio que lhe move e sua incapacidade de raciocínio.

Mas nada é por acaso. Em sua dificuldade patente de articular ideias, Bolsonaro deixa escapar as verdades que tanto tenta sufocar. Marielle, seus filhos…

Se você prestou atenção, caro leitor, Moro jamais mencionou Marielle, mas o Presidente fez questão de tocar no nome da vereadora assassinada. Nos perguntamos por que a Marielle incomoda tanto o Presidente… Ainda não há como saber, mas já restou clara a ligação do clã Bolsonárico com a milícia, como bem explica matéria do The Intercept Brasil.

O que sabemos, com certeza, é que as investigações da Polícia Federal, especialmente, no Rio de Janeiro incomodam e muito o Presidente. Não é de hoje que Bolsonaro tenta intervir na PF para trocar o Superintendente do Rio de Janeiro; não é de hoje que as investigações de Marielle e do 01 assombram Jair.

Seu objetivo de intervir nas investigações é tão prioritário e urgente que o Presidente sequer tenta ser discreto. Tanto que exatamente no mesmo dia que Bolsonaro empossou o novo Diretor-Chefe da Polícia Federal, o Superintendente do Rio de Janeiro foi trocado, levado para Brasília, para ocupar cargo administrativo, perto dos cães do Presidente, onde poderá sempre ser vigiado. Em seu lugar, um nome ligado a Ramagem (aquele que era para ter assumido a Diretoria da PF) e, portanto, ao Presidente.

Por que será que Bolsonaro teme tanto as investigações no Rio de Janeiro?

Bem, mas isso é apenas o começo da ladeira.

Ao ser confrontado pela imprensa, Bolsonaro vociferou como um capitão raivoso e mandou os repórteres calarem a boca. Um verdadeiro ato de censura, uma tentativa escancarada de calar a imprensa. Cria da ditadura e da tortura, Bolsonaro, em meio à sua insignificância cognoscente, não consegue mais calar sua essência.

Mas o Presidente não está sozinho. Todo ser autoritário protofascista tem seus camisas negras. No domingo (antes, então, de toda essa artimanha para interferir nas investigações cariocas da PF), um grupo de manifestantes pró Bolsonaro agrediram repórteres, em frente ao Palácio do Planalto, verbalmente e fisicamente. A manifestação, além de bater em profissionais da imprensa, pedia o fechamento do STF e do Congresso Nacional, além de intervenção militar, algo já recorrente nas falas dos apoiadores de Bolsonaro. A mensagem do exército paralelo do Presidente é clara: aqui, a liberdade não é bem-vinda. Antes ainda, outro grupo de apoiadores do candidato a ditador agrediu profissionais de saúde que se manifestavam em favor do isolamento social. Um dos agressores era funcionário do Governo. Mais uma clara mensagem: aqui, a vida também não é bem-vinda.

Mas não para por aí. Comprovou-se que a manifestação antidemocrática de domingo não só contou com a presença do Presidente, como foi sua cúpula que a organizou. Nós vamos repetir: O Presidente da República (AKA candidatozinho a ditador) organizou manifestações pedindo o fim da democracia.

E mais grave: ao falar publicamente no ato, Bolsonaro disse que não vai mais aceitar interferências (referindo-se à decisão do Min. Alexandre de Morais de barrar a nomeação de Ramagem à PF), pois teria chegado a seu “limite”. E, ainda, disse que se necessário, o exército estaria ao lado do povo, numa clara menção a um golpe militar – c-a-s-o n-e-c-e-s-s-á-r-i-o.

Basta, agora, sabermos quando será necessário.

E assim o Brasil caminha, vertiginosamente, ladeira abaixo. Enquanto isso, parece que a Democracia desceu o morro e está morrendo no asfalto. E nós estamos todos aparentemente anestesiados, paralisados diante de tantos absurdos, contra-atacando atos de autoritarismos com notas de repúdio.

Infelizmente, não há médicos nem enfermeiros que possam acudir nossa democracia. Estão todos cuidando de nossos irmãos infectados pelo coronavírus.

Até a finalização desta coluna, haviam sido confirmadas 8.016 mortes por COVID-19 e mais de 117 mil casos. “E daí?”…

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