Coronavírus: brasileiros relatam experiências com a pandemia no exterior – Raíssa Alencar, Portugal

Brasileira vive isolamento há um mês e meio, em Lisboa, com os dois filhos, país começa a retomar atividade econômica agora, mas com várias restrições

Cecília França

O comércio de Portugal começou a reabrir nesta segunda-feira, após 45 dias fechado, mas isso não significa que se deva correr às lojas. “Começou a reabrir, mas a recomendação continua sendo ‘só para o essencial’ e a maioria das lojas não está aceitando cliente sem máscara. O governo deixa claro que isso é uma medida ‘teste’ e que podemos retroceder, para ninguém ter a falsa impressão de ‘agora tá tudo resolvido’”, relata a brasileira Raíssa Neves Alencar, 32.

Alencar vive em Lisboa há um ano e nove meses com os dois filhos, de 8 e 12 anos. A Covid-19 complicou a rotina já atribulada desta mãe de dois dedicada a escrever sua tese de Mestrado. “O principal desafio está com o fechamento das escolas e consequente permanência das crianças em período integral em casa”, explica.

Apenas as escolas de Ensino Médio foram autorizadas a retomar as atividades presenciais agora, as demais continuam em sistema on-line até o fim do ano letivo.

Até ontem Portugal registrava 25.702 casos de Covid-19 e 1.074 óbitos. Vizinho de um dos países mais afetados pela doença, a Espanha, o governo português agiu rápido para conter o vírus com fechamento das fronteiras e regras rígidas de isolamento. Parece ter funcionado e o país registra uma curva descendente de casos.

Mesmo assim, Alencar acredita que “todo mundo conhece alguém que foi contaminado” em Portugal. Ela mesma teve sintomas, mas não conseguiu realizar o teste na época.

Natural de Paraíso do Tocantins (TO), Alencar conversou com a Lume por e-mail e fez questão de deixar o seguinte recado para os parentes no Brasil: “Se cuidem e se isolem! Mas acima de tudo: não se dividam! Nem por política, nem por religião, nem por questões econômicas. Que é essa união que dá força e ela existe não por proximidade ou distância física, mas sim por ter a consciência do amor que nos liga”.

Leia o depoimento completo:

Raíssa com os filhos Enrico e Pietro. Fotos: Arquivo Pessoal

“Moro em Lisboa com meus dois filhos, Pietro, 12 anos, e Enrico, 8 anos. Como eu já estava em regime de homeoffice, por estar no período de escrever a dissertação da minha tese de mestrado, nesse ponto sofri poucas alterações. O principal desafio está com o fechamento das escolas, e consequente permanência das crianças em período integral em casa. Os professores mandam tarefas e cabe a mim assegurar que eles façam, além de ter que digitalizar, enviar, corrigir… Não tem sido fácil!

Estamos isolados em casa desde 13 de março. Evito ao máximo qualquer saída, seja para farmácia ou supermercado. Aqui em Portugal eu acredito que todo mundo conhece alguém que foi contaminado. O nosso isolamento começou porque o tio de um colega do Enrico atestou para o vírus. E como o menino tinha contato direto com o tio, todas as crianças da sala de aula e seus familiares foram orientados a iniciar imediatamente o isolamento social.

Por ter apresentado alguns sintomas, eu fiz uso do monitoramento de saúde que o governo fornece ao telefone. Queria ter feito o teste, mas na época eles ainda estavam sendo bem regulados.

A comunidade brasileira em Portugal é imensa. Então, pautas dos noticiários daí ganham destaque aqui. Para me informar, basto abrir qualquer jornal online português e logo saberei as notícias. Busco sempre ler também a matéria em um jornal brasileiro, porque noto que a imagem transmitida aqui é, na maioria das vezes, muito negativa. Os portugueses, de forma geral, avaliam nosso país com uma situação caótica. Isso ocorre, em minha opinião, devido ao extremo contraste. Aqui o governo é mais assistencialista e incentivou o isolamento social de forma relativamente prematura frente ao quadro mundial. Como medidas econômicas, também foram anunciados pacotes de auxílio tanto para pessoas jurídicas como para pessoas físicas.

Já no nosso país (Brasil), não há uma unicidade de medidas. Vemos o presidente discordando de seu próprio ministro, para não falar dar divergências entre poderes federais e estatais… É preocupante!

Quando tudo começou, cheguei a pensar em voltar. O suporte da família é crucial. Mas minha mãe também está aqui em Lisboa, só que ela fica no apartamento dela e nós duas evitamos contato justamente porque ela já faz parte do grupo de risco. Logo, percebi que estar perto da família, infelizmente, não é uma solução agora. A regra é isolar-se sobretudo deles. Manter-me longe de todos tornou-se, então, um ato de amor e de cuidado. É assim que racionalizo, uma forma de abrandar as emoções.

Amanhã é dia das mães cá em Portugal (eles comemoram no primeiro domingo de maio), no entanto, minha mãe e eu não poderemos nos ver apesar de estarmos a 15 km de distância uma da outra. Acontece que ela fica no Concelho de Cascais e eu fico em Oeiras (as duas conurbadas com Lisboa) e o governo tem proibido e fechado as estradas nesses feriados.”

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