Coronavírus: brasileiros relatam experiências com a pandemia no exterior – Anna Melo, Hungria

Mineira de 28 anos revela insegurança da comunidade brasileira em relatar possíveis sintomas da doença às autoridades; premiê Viktor Orbán culpou imigrantes pela entrada do vírus no país

Cecília França

“A situação é de muito desconforto. Não me sinto protegida nem pelo governo húngaro e nem pelo Itamaraty”. Assim a engenheira de dados Anna Melo Grzybowski, 28, resume seu sentimento por estar enfrentando o período de pandemia do novo Coronavírus em Budapeste, capital da Hungria, onde reside e trabalha há um ano e três meses. O país da Europa Central somava ontem 3.035 casos da doença e 351 mortes em decorrência da Covid-19.

Grzybowski relata que imigrantes foram culpados pela entrada do Coronavírus no país pelo primeiro ministro ultranacionalista Viktor Orbán, já que o primeiro caso registrado foi de uma estudante iraniana. “Num primeiro momento o governo tratou muito mal esses imigrantes e seus colegas de faculdade, inclusive confinando todos eles juntos (doentes e saudáveis) num hospital como forma de conter a propagação”, relata.

A atitude gerou insegurança na comunidade brasileira, que optou por não relatar possíveis sintomas às autoridades, diz Grzybowski. A Hungria decretou estado de emergência no início de março para conter a propagação do vírus. Mas a condução da crise por Orbán chegou a ser condenada pela União Europeia como pouco democrática, especialmente a partir da aprovação da chamada “Coronavirus Act”, que concede poder ao premiê para governar por decreto sem limite temporal.

Natural de Uberlândia (MG), Grzybowski trabalha na Hungria como engenheira de dados de uma multinacional norte-americana. Por e-mail ela conversou com a Lume.

Leia o depoimento completo:

“Moro na Hungria há 1 ano e três meses. Divido o apartamento com outros dois brasileiros, um de 30 e outra de 23 anos. Eu precisava trabalhar no escritório pelo menos três vezes por semana. Agora, estou trabalhando de casa em tempo integral e saio exclusivamente para comprar mantimentos, nem para atividades físicas, embora seja permitido. Como o apartamento é pequeno e não temos espaço de estoque, saio uma vez por semana para ir ao mercado. Estou praticando todas as medidas de segurança recomendadas pela Organização Mundial da Saúde.

O colega de apartamento da minha irmã foi contaminado em Fortaleza (CE), mas aqui em Budapeste desconheço pessoas que tenham sido contaminadas. Na verdade, o governo húngaro afirmou publicamente que o Coronavírus foi trazido pelos imigrantes, pois os primeiros casos identificados foram de dois estudantes iranianos. Num primeiro momento o governo tratou muito mal esses imigrantes e seus colegas de faculdade, inclusive confinando todos eles juntos (doentes e saudáveis) num hospital como forma de conter a propagação. Essa atitude intimidou a comunidade brasileira e, como um consenso, deixamos de relatar sintomas às autoridades, a menos que fosse imprescindível.

Assim, não tivemos nenhum caso identificado, embora muitos de nós tenham apresentado sintomas correlatos. Me informo sobre a situação do Brasil principalmente por meio de veículos de mídia brasileiros e internacionais, como El Pais. Mais raramente em veículos locais, pois além de não falar húngaro, o governo tem restrições quanto aos conteúdos de mídia veiculados no país. O sentimento (por estar longe dos familiares) é de muito desconforto pois além de não poder fazer nada pela minha família, que, em sua maioria, se encontra no grupo de risco, não me sinto protegida nem pelo governo húngaro e nem pelo Itamaraty.

Algumas situações que presenciei na comunidade brasileira na Hungria me mostraram que o Itamaraty não tem se posicionado como a entidade que nos protege fora do território brasileiro, deixando de responder às solicitações e, eventualmente, dificultando processos. Assim, o momento é de grande incerteza. Ao mesmo tempo, vejo que o sistema de saúde brasileiro está completamente sobrecarregado e nesse sentido minha assistência aqui pode ser eventualmente melhor.

Se eu estivesse em algum país da Europa Ocidental, estaria mais tranquila pois as condições democráticas estão garantidas e imigrantes são tratados de igual para igual com os cidadãos europeus.

Gostaria de pedir a todos os meus parentes no Brasil para que sigam as recomendações da OMS e permaneçam em casa, mesmo quando isso não parecer mais necessário. Aqui no exterior, o governo de Bolsonaro volta e meia tem sido ridicularizado pelos veículos de mídia desde sua posse, por diversos posicionamentos mediante a comunidade internacional. É preciso entender que números são só números até que se atribuam nomes a eles. Não esperemos alguém da nossa família se tornar mais uma vítima para fazer o que é certo.”

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