Comércio: a tensão de quem teme reabrir as portas em meio à pandemia

Comerciantes e prestadores de serviços relatam dilema entre se manter financeiramente e o medo de exposição ao Coronavírus

Cecília França

O valor do aluguel não caiu um centavo, as contas básicas continuam chegando, o empréstimo solicitado a uma agência de fomento ainda não saiu. Depois de usar suas economias e fazer vendas antecipadas, a cabeleireira Daniela Germano Silva, 41, se viu obrigada a retomar as atividades no salão, em Londrina, nesta semana, mesmo estando no grupo de risco para a Covid-19 por ser asmática.

Durante os 40 dias em que permaneceu com as portas fechadas ela manteve o salário integral de sua única funcionária e, agora, não tem mais como sustentar filhos, casa e salão. Para garantir a segurança – própria e dos clientes – Daniela comprou máscaras normais e de acrílico e está agendando apenas quatro atendimentos por dia. Mesmo assim, ela se diz totalmente contrária à reabertura do comércio e enxerga um governo omisso ao não possibilitar o isolamento dos trabalhadores com dignidade.

“A responsabilidade é do governo. Temos que ter condições de ficar em casa. Eu pago 10% de todo o meu lucro e, de fato, não estou tendo amparo nenhum. Vou ter que voltar, mas se acontecer alguma coisa comigo que fique claro que é culpa do Estado”, afirma. Para voltar ao trabalho Daniela vai deixar os filhos de 1 e 3 anos com sua mãe e com o pai deles, de quem é separada, expondo ainda mais pessoas à possibilidade de contaminação.

“Me sinto numa roleta russa. Por mim eu não voltaria. Eu acredito que nessas próximas duas semanas vai ter muita morte e gostaria de estar trancada em casa”, explica.

Daniela Germano Silva com equipamentos de segurança em seu salão. Foto: Reprodução Instagram

O comércio de Londrina reabriu na última segunda (20), após quase um mês fechado, com limitações de fluxo, horário (10h às 16h) e exigência de uso de máscaras. O prefeito, Marcelo Belinati, diz pautar suas decisões em orientações do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (Coesp), formado por profissionais da saúde. Belinati já deixou claro que um novo fechamento do setor produtivo não está descartado.

Durante o período em que as lojas ficaram fechadas, empresários realizaram ao menos dois protestos pedindo o retorno das atividades. O setor de salões de beleza também formulou petição com o mesmo teor. Daniela não assinou o documento.

Londrina registra hoje oito mortes em decorrência da Covid-19 e três vítimas tinham menos de 60 anos.

“É difícil se sentir completamente seguro”

O músico Fernando Martins, 37, proprietário de uma escola de música na Zona Sul de Londrina, decidiu retomar as atividades parcialmente. O fato de ser casado com uma bancária, que continua trabalhando diariamente, traz uma carga extra de preocupação para Martins, que é hipertenso, porém, ele traçou um plano rigoroso de controle das atividades na escola. “As medidas que estamos tomando é evitar que pessoas fiquem esperando na recepção quando possível; vou manter a secretária trabalhando em casa; obrigatoriedade de máscaras para os alunos e para os professores e pelo menos 2 metros de distância entre o aluno e professor”, detalha.

Fernando Martins: retomada gradual na escola para garantir segurança. Foto: Reprodução Instagram

As aulas individuais permitem um controle rigoroso do fluxo de pessoas na escola, mesmo assim, professores e alunos que não se sentirem seguros para voltar às aulas presenciais poderão continuar no método online. Corais e grupos continuarão a se reunir apenas virtualmente. O músico diz não se sentir seguro para voltar a atender normalmente. “É difícil se sentir completamente seguro. Da mesma forma que preciso trabalhar, preciso confiar que os meus clientes estão fazendo a sua parte no quesito cuidados e higienização pessoal. Mas estou seguro quanto às minhas práticas na escola. O fato de eu conseguir controlar de forma rigorosa a quantidade de pessoas por hora que entra e sai me dá um alívio”, explica.

“A incerteza é a nossa angústia”

O dinheiro que estava na poupança para custear a reforma do café em um prédio comercial na Gleba Palhano vai ser destinado para o sustento. A proprietária do estabelecimento, Mariana Guerin, 39, optou por não retomar o atendimento ao público por tempo indeterminado. Até domingo, quando conversou com a Lume, ela ainda não estava certa sobre qual caminho tomar, e desabafou: “Neste momento, estou mais preocupada em manter minha saúde e de quem está próximo de mim. Mas sei que tem pessoas que não podem se dar esse luxo. Creio que este momento deve ser de resguardo, uma vez que não fizemos a quarentena corretamente. Creio que precisaríamos de mais tempo sem circular e mais testes para saber o real número de casos na cidade. A incerteza é a nossa angústia”,

Mariana precisou suspender o contrato da funcionária admitida há menos de dois meses e para se manter vai voltar a fabricar bolachas caseiras, como fazia antes da aquisição do café. “Não me sinto nada segura em voltar por conta de uso de máscara e da manipulação de alimentos e dinheiro. Sempre trabalhei com higiene, mas fico apreensiva por mim e pelo cliente”, explica. Mariana não faz ideia de quanto tempo vai levar para retomar as atividades, entretanto, sabe quais cuidados extras vai precisar tomar. “Ofertarei álcool em gel, como sempre foi feito mesmo antes da pandemia; trabalharei com máscara, cabelos presos e avental e pretendo continuar lavando as mãos em cada processo”. Por hora, no entanto, essas medidas não têm data para começar a valer.

Em Curitiba, mais de 130 estabelecimentos se mantêm fechados

Cosmos Gastrobar é um dos participantes do movimento. Foto: Reprodução Instagram

O comércio de Curitiba reabriu oficialmente na última sexta-feira (17), mas para estabelecimentos integrantes do movimento “Fechados pela Vida” a quarentena continua. Mais de 130 bares, restaurantes, cafés e baladas já aderiram ao manifesto, que pede a continuidade das medidas de isolamento até que dados científicos comprovem a segurança da retomada das atividades. Janaína Santos, proprietária de um bar e restaurante, explica que a iniciativa surgiu como uma reação aos pedidos de flexibilização da quarentena e reabertura do comércio.

“Tivemos que nos mobilizar de maneira muito rápida. Agora estamos correndo atrás para formalizar o manifesto e entregar às autoridades. Recebemos contatos de alguns políticos interessados em saber mais e soubemos também que, por intermédio da imprensa, os sindicatos tomaram conhecimento da nossa carta”, conta Janaína. De acordo com ela, a comunidade também tem se engajado e se mostrado disposta a consumir nos estabelecimentos participantes da ação.

Mesmo com todas as dificuldades financeiras enfrentadas nesse período – como burocracia para acessar linhas de crédito – Janaína acredita que o manifesto pode ecoar e sensibilizar autoridades sobre a necessidade de atitudes unificadas para conter o avanço do Coronavírus. “A gente precisa muito que haja uma liderança, para que as medidas tomadas pelas cidades e Estados sejam unificadas. Para nós, do comércio, não há condições de abrir, também pelo fato de que as pessoas não vão sair de casa tendo o risco de se contaminar”, conclui.

Curitiba tem hoje 435 casos confirmados de Coronavírus e 14 mortes.

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