O mar das violações e o samba da esperança

por Paula Vicente e Rafael Colli, integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina

Acabou mais um carnaval, a festa de Momo foi intensa como sempre, e agora precisamos nos atualizar sobre os acontecimentos recentes, pensar para onde nossa democracia anda para, finalmente, iniciarmos o ano.

O Presidente da república, mais uma vez, ofendeu gravemente todas as mulheres deste país, por meio de um discurso de ódio que causa inveja ao mais primitivo machista; por outro lado, um grupo de milicianos tentou tomar o Poder da PM do Ceará paralisando o serviço de segurança do Estado e acabou baleando um Senador da república; e, claro, o carnaval e suas lutas em prol dos Direitos Humanos. Muito aconteceu desde nossa última coluna, então preparem-se que temos muito a comentar.
Queremos também, ainda em intróito, nos escusar pela demora no lançamento deste texto. Também somos filhos deste país e bons carnavalescos.

Pois bem, ao trabalho.

Para iniciar, na terça-feira retrasada (18 de fevereiro), Bolsonaro, mais uma vez, usou sua artilharia de ódio, para atacar, de uma vez, o Jornalismo e as mulheres. Ao tratar sobre a CPI da Fake News, Bolsonaro insultou, com insinuação sexual, a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha: “Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim [risos dele e dos demais]”, disse o presidente, em entrevista diante de um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio da Alvorada.

A lamentável insinuação infringe a liberdade de expressão, ao diminuir o trabalho do Jornalismo – como se toda a categoria estivesse a procura de notícia contra ele; e infringe, frontalmente, a dignidade sexual da mulher, com uso de insulto suxual – praxe do discurso de ódio machista e patriarcal.

De novo, batemos na tecla do machismo, da misoginia, Bolsonaro profere impropérios a torto e a direito contra as mulheres, ao atacar uma mulher que está realizando seu trabalho, de maneira digna, sinaliza para toda a nação que não se deve respeitar o trabalho de qualquer mulher, elas podem e devem ser achincalhadas. É sempre bom lembrar que o outro episódio recente de ataque contra um jornalista teve cunho homofóbico, ou seja, o “machão” é bom atacando minorias, mas se cala diante de seus pares, típico comportamento dos covardes.

No dia seguinte, quarta-feira (19 de fevereiro), o Senador Cid Gomes foi baleado por Policiais Militares do Ceará que estavam em greve. Cid teria usado uma retroescavadeira para furar uma barricada feita pelo grupo de milicianos para impedir a entrada no quartel. Em meio à ação, os policiais revidaram e acertaram dois tiros de arma de fogo no Senador, que passa bem.

Mas, o que será que este caso tem a ver com Direitos Humanos? Tentaremos ser breves.

O caso é este: O Estado do Ceará, que, recorda-se, é governado pela esquerda, havia apresentado um plano de reajuste para a Polícia Militar. No entanto, o plano foi contestado por policiais e bombeiros, que iniciaram paralisações. Depois de alguns dias, um acordo foi anunciado. Contudo, um grupo dissidente da Polícia Militar ficou insatisfeita, tendo iniciado uma verdadeira batalha para a tomada do Poder (barganha) dentro dos batalhões. Homens encapuzados e armados atacaram quartéis e batalhões e exigiram que o comércio local fechasse em prol da paralisação.

Muito além de uma paralisação inconstitucional (aos militares são proibidas a sindicalização e a greve, como prevê o art. 142, inciso IV, da Constituição), o ato foi uma grave afronta à população, que foi atacada e amedrontada pela braço do Estado responsável por levar segurança ao povo. Foi neste contexto que o Senador enfrentou os milicianos. Certo ou errado, o Senador se levantou contra uma gravíssima violação de Direitos Humanos e espera-se que as medidas cabíveis sejam tomadas e a normalidade restabelecida.

Gostaríamos que as violações parassem por aí, mas não. No entanto, esta coluna não comportaria tantos fatos. Para finalizarmos, então, escolhemos a esperança em detrimento da angústia: O carnaval.

Sim caros leitores, essa semana tivemos o feriado preferido do brasileiro, pelo menos destes que vos falam. Festa, diversão e arte, tudo junto e misturado. Nesta óptica, os desfiles das escolas de samba são o que melhor representam o conceito do carnaval: Uma festa de felicidade, música, cor, muita diversão e resistência. Sim, resistência ao conservadorismo tristonho que sempre assombra a alegria do samba.

Dentre os destaques deste ano, o palhaço Bozo, na exata representação do Sr. Presidente da República – fazendo “arminha” com a mão e tudo; o comediante Marcelo Adnet, também representando o Sr. Presidente, estampando frases de efeito como “acabou a mamata”; e, principalmente, o samba enredo da Mangueira, trazendo uma visão moderna da vida de Jesus Cristo, retratado na pele de todas as minorias oprimidas e violadas. Chamaram especial atenção o Cristo crucificado, um rapaz negro, favelado, de cabelos tingidos de louro e morto a tiros – provavelmente pela violência policial; e Jesus tomando uma “batida” policial, demonstrando, claramente, o povo outrora protegido por Cristo, hoje é assolado pela violência do Estado.

Não é necessário dizer que o Presidente e seus fiéis soldados criticaram, em massa, a escola de samba, acusando-a de preconceito religioso.

Deixa-se aqui, entretanto, este fio de esperança: Violações aos Direitos Humanos ocorrem todos os dias. Mas não percamos as esperanças. Ainda há muita beleza e luta na arte popular; ainda há muito fogo aquecendo o coração do povo. A resistência é assim, luta diária e de base; do samba que canta e encanta os morros à poesia que cultiva a alma dos mais nobres.

Que não nos esqueçamos do que disse o samba mangueirense neste carnaval: Favela, pega a visão: Não tem futuro sem partilha; Nem messias de arma na mão…

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