“Policiais cumpriram ameaça de matar meu filho”

Sônia Messias da Silva diz que morte de Valber Messias foi execução e não resultado de confronto

Simoni Saris

“A morte do meu filho foi o cumprimento de uma ameaça que os policiais sempre faziam a ele.” A declaração é de Sônia Messias da Silva sobre a morte do filho Valber Messias da Silva, de 26 anos, ocorrida dia 1º de novembro deste ano, em uma favela do lado do Conjunto Luiz de Sá (zona norte).

No interior do Estado, Londrina é recordista no número de mortes em confronto com agentes de segurança. Somente no primeiro semestre de 2019, o Grupo de Atuação Especial de Combate do Crime Organizado (Gaeco), registrou 25 mortes. Para o Movimento Nacional dos Direitos Humanos (MNDH), desde fevereiro, foram 35.

Além da perda em si, as famílias sofrem com falta de informações sobre os casos. Não sabem, por exemplo, se os agentes envolvidos foram ou estão sendo investigados ou não. A aflição é tanta que representantes de 13 dessas famílias foram a Curitiba dia 10 de dezembro pedir esclarecimentos à coordenação do Gaeco. Clique aqui e leia mais.

Abaixo, confira o desabafo que a mãe de Valber fez à reportagem:

“A morte do meu filho foi o cumprimento de uma ameaça que os policiais sempre faziam a ele. Meu filho tinha passagem, mas havia saído da prisão há dois anos e estava trabalhando em uma empresa de uns parentes nossos. Ele ainda não havia sido registrado, mas ia ser.

Valber Messias da Silva

Desde que saiu da prisão, o Valber sempre foi perseguido pela polícia. Se o vissem andando na rua, era sempre parado por policiais da 4ª Companhia da Polícia Militar (responsável pelo policiamento na zona norte da cidade) que o ameaçavam, dizendo que iriam pegá-lo. Eu dizia que ia dar queixa contra os policiais, mas o Valber não deixava.
No dia em que ele morreu, em 1º de novembro, ele estava em uma favela do lado do Conjunto Luiz de Sá (zona norte de Londrina). A maioria (dos moradores da favela) a gente conhece. O Valber tinha ido visitar um amigo à noite. Mas tinha tido um assalto a uma farmácia na Avenida Saul Elkind (principal via da região norte) e o rapaz que assaltou também morava lá na favela.

Os policiais entraram (na comunidade) já atirando procurando o assaltante. Estavam fazendo algodão doce para as crianças da favela e eles chegaram atirando. Tinha muita criança na rua. Colocaram a vida de muita gente em risco.
Quando entraram na casa onde meu filho estava, deram um tiro na perna do amigo do meu filho e contra o Valber atiraram várias vezes, pelas costas. Meu filho, quando foi atingido, parou, mas os policiais deram mais tiros. Arma potente. Ele morreu no local. Os policiais deixaram uma arma lá para dizer que era do meu filho. Mas ele não tinha arma. Essa arma foi plantada lá.
Falam que a mo
rte foi em confronto, o comandante (da 4ª Companhia) fala que é confronto, mas foi execução. Eles cumpriram o prometido.
Meu filho estava com saúde, tinha um filho de três anos que era muito apegado a ele, mais do que com a mãe. O filho sempre pergunta quando o pai vai voltar. Deveriam pensar que essas pessoas que eles matam têm família.
Estamos buscando a Justiça da Terra e a justiça de Deus. Peço para Deus mostrar a verdade porque a verdade nunca fica escondida. Deus é fiel. Enquanto eu viver, vou buscar a Justiça. Hoje sou uma morta-viva.

Se a pessoa estiver errada, prende, mas não executa. São uns bandidos fardados e a sociedade se engana em relação a eles. Não dá mais para andar à noite confiando em polícia. Eu perdi toda a credibilidade na polícia. É uma sem-vergonhice essa cidade. É uma milícia. Você não vê nenhum filho de bacana trocar tiro com eles. É só na periferia que acontece.
E temo pelo meu outro filho, que também está preso, e temo por mim, pela minha vida. Estou mexendo em feridas e se a gente começa a fuçar, aparece a verdade e ninguém gosta que a verdade apareça.”

OUTRO LADO – A reportagem aguarda posicionamento sobre o caso pedido para a assessoria de comunicação da PM, em Curitiba. Comandante do 5º Batalhão, o major Nelson Villa respondeu à Lume por whatsapp, na segunda-feira (23). Ele está em férias e não pode falar especificamente sobre o caso Valber Messias. Mas garantiu que “todos os inquéritos são enviados à Justiça”. “O Ministério Público é titular legal da ação penal. E o judiciário é o destinatário do exercício da titularidade do Ministério Público. Todos os procedimentos estão com eles”, afirmou.

A Secretaria da Segurança Pública do Paraná enviou nota dizendo que “tem como premissa determinar investigação de todo e qualquer caso que chegue oficialmente (canais oficiais) a conhecimento das instituições policiais, pois não compactua com condutas irregulares de nenhum integrante das forças, ou qualquer órgão ligado à Pasta. Sobre os casos em específico, sugerimos à reportagem a procurar as instituições supostamente envolvidas para saber sobre os andamentos.”

Depoimento da professora Lúcia Solange Bueno sobre a morte do filho Jorge Alceu Bueno Mariano, de 27 anos

No interior, Londrina é recordista em mortes pela Polícia

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