“Nossa sociedade é estruturalmente monosexista, portanto, a bissexualidade fica invisibilizada”, diz londrinense

Victor Reale acredita que estrutura social e falta de informação impedem bissexuais de exercerem plenamente sua sexualidade

Cecília França – Rede Lume de Jornalistas

Não se trata de uma fase, não se trata de sem-vergonhice nem de um processo de transição para a homossexualidade. A bissexualidade é uma identidade plena, mas há uma dificuldade imensa em exercê-la de fato na nossa sociedade. Quem visse Victor Reale, 29, no dia da nossa entrevista diria se tratar de um homem cisgênero e, muito provavelmente, heterossexual. No entanto, o servidor público não se identifica com uma classificação nem com a outra.

Reale entendeu-se bissexual há poucos anos, depois de longa crise de identidade, comum entre a comunidade LGBT. Chegou a transicionar para o feminino por um ano, até entender que este papel não lhe cabia. Hoje, militante do movimento, entende que a estrutura social oprime os bissexuais, negando-lhes referências e acessos.

“Nossa sociedade é constituída para ser monosexista, portanto, a bissexualidade fica invisibilizada. Nós não temos referências de figuras públicas, de heróis, personagens da nossa cultura mesmo, que sejam bissexuais”, explica. Reale é o quarto entrevistado do nosso Especial LGBTfobia.

Talvez a bissexualidade seja a orientação sexual mais difícil de ser identificada, pela falta de informação disponível e pelo preconceito que incita. Reale conta que o próprio histórico do movimento LGBT mostra que o apagamento é real e ele protagoniza uma luta diária para reverter este cenário.

“A tendência de se invisibilizar é consequência também da heterocisnormatividade que a gente vive. Para um homem cis, por exemplo, é muito mais cômodo se colocar enquanto hétero, mesmo que ele seja bissexual”.

Ele próprio vivenciou várias situações de preconceito e falta de entendimento desde que se posicionou publicamente. Perdeu contatos, ganhou outros, viu seu mundo mudar totalmente. “A gente começa até a entender dúvidas que a gente tinha desde criança”, revela.

Reale chegou a se ver como homossexual, processo que ele considera natural diante da falta de referências públicas e pessoais. “Na minha época de adolescência eu só tinha referência de homossexuais, mas eu sempre soube que eu não era, não era uma identidade que me cabia”.

Assista vídeo da entrevista

Saúde mental

Reale diz que a bissexualidade não é exercida por homens de uma forma plena, uma consequência do machismo estrutural que vivenciamos. Isto acaba por “empurrar” essas pessoas para a clandestinidade, que Reale chama de “guetos”, onde acontecem encontros. Para mulheres a realidade não é mais tranquila, sendo que elas ainda são fetichizadas como lésbicas.

“Estruturalmente a gente é condenado a ter algumas doenças mentais por conta dessa crise de identidade. Eu tive que tratar crise de ansiedade por muitos anos, agora já consegui superar muita coisa por conta do empoderamento, que nem todos têm acesso”, explica.

A definição para Reale aconteceu a partir da militância no movimento LGBT. Antes ele se retraía, tinha vergonha de pesquisar sobre o assunto. Sentia desejo por homens e mulheres e era algo que lhe trazia um peso. “Eu pensava ‘será que nunca vou me sentir feliz?’”.

Durante sua pesquisa para a monografia da pós-graduação Reale criou um grupo focal somente com homens bissexuais e identificou vários fatores comuns entre eles por conta da crise de identidade.

Transição

Durante um ano Reale viveu uma experiência de transição de gênero. Tomou hormônios e enfrentou várias situações transfóbicas até entender que sua questão não era de gênero.

“O papel do homem na nossa sociedade nunca me coube, mas não necessariamente eu me enxergava como mulher. Eu precisei viver isso para saber que não me cabia”, conta. A experiência fez com que seu respeito pela comunidade trans aumentasse.

“As pessoas perdem o respeito, acham que podem se tocar, podem dizer o que você deve ou não ser. A gente vive uma transfobia social crônica”, constata.

Hoje, Reale se entende como uma pessoa não-binária (que não se identifica integralmente nem com o gênero feminino nem com o masculino. No dia de nossa entrevista ele vestia roupas tipicamente masculinas, no entanto, diz que pode usar batom ou algum outro apetrecho feminino quando lhe convém sem problemas.

“Eu trabalho diariamente pela visibilidade das pessoas bi dentro do movimento LGBT”.

Criminalização

Questionamos Reale sobre a criminalização da LGBTfobia. Para ele, criminalizar, apenas, tem efeito simbólico, mas não resolve coisa nenhuma “porque quem vai preso na nossa sociedade não é a pessoa branca, de classe alta, héteros”. “O STF está tendo que tomar algumas medidas de urgência social porque o poder Legislativo não está atuando nesse sentido”, opina. “Quem mais vai ser penalizado com isso vai ser a pessoa pobre, que não teve acesso, não a que foi educada no mais alto requinte”.

Mas ele vê um ponto positivo no momento político mais radical que vivemos. Trazendo à tona pautas consideradas reacionárias, como ideologia de gênero e Escola sem Partido, abre-se a possibilidade de debate e as pessoas afetadas ganham voz.

“Eu acredito que daqui uns 10, 15, 20 anos a gente discutir esse assunto vai ser ridículo”, finaliza. Assim esperamos.

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