Mortes em confronto com a Polícia crescem mais de 100% em Londrina

OAB pede explicações às autoridades; comandante da PM diz à Lume que número de operações aumentou em resposta à criminalidade

Cecília França e Nelson Bortolin
Rede Lume de Jornalistas

Foto: Divulgação PM

A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Subseção Londrina, apurou que em todo o ano passado houve 23 mortes em confronto com agentes de segurança na cidade (22 com PMs e uma com Guarda Municipal). Em 2019, somente até julho, já foram 24. Segundo a presidente da comissão, Paula Vicente, a OAB está buscando respostas que expliquem este aumento de óbitos.

Da mesma forma, afirma ela, tem aumentado o número de queixas a respeito da violência policial por parte de moradores de bairros periféricos e ocupações. A cada vez que uma viatura da Polícia Militar se aproxima da ocupação Flores do Campo (Zona Norte), por exemplo, os moradores ficam aflitos, principalmente as crianças menores, que saem correndo em busca das mães.

As famílias reclamam que as abordagens são agressivas e que os policiais, em busca de criminosos, entram em todas as casas indistintamente. No dia 15 de agosto, Paula teve oportunidade de presenciar o desespero das pessoas que vivem na ocupação. Ela estava no local junto com três outros integrantes da comissão – Rafael Colli, Rafael Folco e Helen de Oliveira – para checar denúncias de maus tratos pela polícia.

“Eram por volta das 21 horas, quando as crianças começaram a gritar”, relata a advogada. “Como tudo é muito precário por lá, nós estávamos fazendo a reunião na rua, embaixo de um poste de luz. As crianças gritaram e todo mundo saiu correndo”, explica. Paula e outro advogado foram até a entrada da ocupação e viram a viatura passar com os faróis apagados e os policiais com lanternas acesas.

“É uma situação muito tensa, os moradores têm muito medo e dizem que as abordagens aumentaram muito nos últimos tempos.” A comissão está averiguando as ocorrências e vai cobrar explicação das autoridades. “Entendemos que a Polícia precisa fazer o trabalho dela, mas queremos saber se esse trabalho está sendo feito no limite da legislação. Não se pode entrar na casa das pessoas indistintamente, sem mandados”, declara a advogada.

Em outros bairros próximos à ocupação também paira a sensação de medo. Foi o que relatou à Lume uma moradora antiga da região que pediu para não ser identificada. Segundo ela, foi instituído uma espécie de “toque de recolher”, às 22h, quando a polícia estaria autorizada a atirar em quem está na rua e se mostre suspeito.

PM confirma mortes

O comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina, Major Nelson Villa, confirma o aumento no número de mortes em confronto com a polícia este ano. Segundo ele, isto ocorre porque foi necessário intensificar as operações, uma vez que a criminalidade estaria enfrentando mais a polícia.

No último dia 22, a Lume esteve no batalhão para ouvir o comandante sobre este e outros assuntos. Confira aqui.

Sofreu na pele

Cidadão está com 32 anos de idade e mora numa das 61 ocupações de Londrina. Ele deixou a cadeia há cerca de dois anos e hoje tenta levar a vida longe do “movimento”. “Sair do crime é igual deixar o crack. Mas eu estou conseguindo, não volto mais”, afirma ele à reportagem da Lume. Com duas filhas para criar, hoje vive de “rolo”. “Vendo de tudo, mas nada roubado”, garante.

Cidadão diz que, no local onde mora, as pessoas preferem pedir ajuda aos traficantes que à polícia. “Na quebrada, se tem uma briga e a gente chama o pessoal do movimento, eles vêm e resolvem na boa. Se chamar a polícia, os homens vêm com pau na mão e descem o cacete”, denuncia.

Ele mostra cicatrizes nas costas que, garante, foram feitas por facas usadas por policiais durante abordagens violentas. Quando questionado sobre suas lembranças da polícia desde a infância, Cidadão cita uma cena que não sai de sua cabeça: “Os policiais chegam procurando bandido e chutam as portas de todos os barracos, não querem nem saber.”

Ele afirma haver um temor por parte da população quanto às formas de abordagem da polícia. “Preto, pobre, madeira neles! Isso a gente já sabe.” Outra mágoa de Cidadão são os amigos muito chegados que perdeu nos confrontos com a polícia. Começou a falar os nomes e contar nos dedos. Precisou das duas mãos.

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