Comandante do 5º Batalhão avalia relação da PM com a comunidade

Major Nelson Villa se nega a estigmatizar bairros pobres e aponta motivos para má imagem da polícia nesses locais

Nelson Bortolin (colaborou Cecília França)
Rede Lume de Jornalistas

“Não existe nenhuma incompatibilidade entre Direitos Humanos e Polícia. As organizações de Direitos Humanos são essenciais para o exercício da democracia”. Numa época em que o presidente da República defende torturadores e o armamento indiscriminado da população, é difícil imaginar que as frases acima tenham sido pronunciadas por um policial. Mas foi o Major Nelson Villa, comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina, quem as pronunciou.

Na PM desde 1991, Villa assumiu o comando do 5º BPM no final de julho, após passagem pelo comando da 4ª Companhia Independente – responsável pelo policiamento na Zona Norte da cidade. A Lume foi até a sede da PM no dia 22 de agosto ouvir o comandante sobre a relação da Polícia com a sociedade. Por que os moradores das periferias têm uma imagem tão ruim da instituição? Direitos Humanos e política de segurança pública são conciliáveis? Qual o efeito que as declarações agressivas de Jair Bolsonaro têm sobre os policiais?

Formado e pós-graduado em direito, Villa acredita que há dois motivos que explicam a imagem negativa da PM nas comunidades mais pobres. “Com raras exceções sou mal recebido em bairros que eu mesmo faço abordagens. Agora, a gente tem de reconhecer que, em algum momento, um policial possa ter exorbitado no seu dever de agir. E isso gera um efeito psicológico (na comunidade)”, afirma.

Nelson Villa em entrevista à Lume

Outra possibilidade se refere à relação que essas comunidades mantêm com os criminosos. “Se a criança vê como referência o traficante, é natural que ela passe a ver como algoz o policial.”

O fato de a Polícia ser a única presença do Estado em determinados locais, segundo Villa, também ajuda a formar a imagem da instituição junto aos moradores. “Em determinados bairros, só entra a Polícia. Não tem escola, não tem saúde. Aí vem o policial investigar o cometimento de crime, fazer a abordagem. É o único a admoestar a população.”

A Lume perguntou se o comando admite a existência de abordagens violentas de policiais. Há relatos de PMs que arrombam indistintamente barracos em favelas em busca de bandidos. Villa respondeu: “Não sou ingênuo a ponto de acreditar que isso nunca aconteceu. Neste caso, o policial tem de ser punido. Assim como existe a legítima defesa, existe a previsão do excesso.”

Mas, na visão do chefe da PM na cidade, há muito mais denúncias falsas do que casos reais. Ele diz que é preciso agir com cuidado. “Imagina se a cada denúncia de excesso eu retiro o policial da rua? Ninguém mais vai querer ir lá e o espaço fica livre para o tráfico.”

O major também considera que a PM recebe críticas injustamente. “O traficante esconde a droga na casa da dona Maria. A dona Maria faz uma denúncia anônima. Nós conseguimos um mandado e vamos na casa dela e ninguém entende por que fomos lá, sendo que a dona Maria nada tem a ver com o crime”.

Comandante comenta relação entre Polícia e Direitos Humanos

De acordo com ele, há justificativas para ações da Polícia, levantadas pelo setor de Inteligência, que não podem ser divulgadas para proteger moradores. “Às vezes nós levamos pedradas e aguentamos quietos porque não podemos colocar a segurança das pessoas em risco.”

O major diz ainda não estigmatizar bairros nem relacionar diretamente pobreza com criminalidade. Porém, acredita que a miséria extrema, associada a uma série de outros fatores, pode abrir o campo para o ingresso no mundo do crime.

Villa não gosta quando dizem que a Polícia escolhe pobres e negros para abordar, e justifica seu posicionamento. “Metade do nosso efetivo é negro. Esse final de semana fizemos abordagens em bares frequentados por pessoas distintas da cidade”, exemplifica.

Questionado se os policiais utilizam o direito de defesa como desculpa para abusos, ele sai novamente em defesa dos seus comandados. “A legítima defesa não é instituto dado a policiais. É dado a todas as pessoas. Evidentemente que, se alguém tentar tirar sua vida, você tem o direito de tentar preservá-la. Às vezes, o que parece uma violação de direito não é exatamente.”

Sem generalizar

Nelson Villa acredita que é preciso evitar generalizações: “A pessoa chega e diz: ‘Mas ele é um estuprador’. É um estuprador, mas tem o direito de defesa. O que não podemos aceitar é um policial chegar e dizer: ‘Os Direitos Humanos só atrapalham’. Se um policial diz isso é o pensamento dele, não da instituição.”

Da mesma forma, alega o comandante, não se pode generalizar a conduta da PM. “Uma pessoa fala: ‘Todo policial é corrupto’. Joga a instituição Polícia Militar no banco dos réus porque um policial cometeu um ato errado. Isso não está certo, não é justo.”

Mesmo adotando esta postura moderada, Villa não incorre em uma só crítica ao presidente Jair Bolsonaro ou ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel – que autoriza granadas de efeito moral serem jogadas de helicóptero sobre comunidades cariocas. O máximo que o comandante do 5º Batalhão se aproximou de uma crítica foi quanto à frase pronunciada por Witzel referindo-se a bandidos que portam fuzis: “A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo!”

“Não vou nem comentar”, disse Villa. Para ele, nem Bolsonaro nem o governador fluminense ofendem a Constituição. “Ninguém está com um fuzil na mão apenas para fazer segurança. Esta pessoa está na iminência de matar alguém”, justifica. “Eu não vi em nenhum momento o governador do Rio de Janeiro dizer que as pessoas devem ser executadas.” O comandante não concorda que a dupla Witzel e Bolsonaro incentive policiais a agirem com truculência.

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