“A criminalização é um avanço, o difícil é a pessoa chegar a fazer a denúncia”, diz psicólogo doutor em violência de gênero

Para Alex Gallo, existe uma correlação entre o caminho trilhado pela violência contra a mulher até a provação da Lei Maria da Penha e o que se busca agora com a LGBTfobia

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Integrantes da comunidade LGBT vítimas de violência não denunciam as agressões nem procuram ajuda, algo muito semelhante ao que acontecia – e, em muitos casos, ainda acontece – com mulheres agredidas antes da aprovação da Lei Maria da Penha, 13 anos atrás. A constatação é do psicólogo Alex Gallo, especialista em violência de gênero e professor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2010. Ele é o terceiro entrevistado do nosso Especial LGBTfobia.

Gallo acredita que a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pode colaborar para uma mudança neste cenário, porque dá respaldo para as denúncias, embora ele tema uma dificuldade justamente na porta de entrada. Novamente, ele se baseia no que ocorre com as mulheres. Mesmo com uma lei as amparando, e o visível avanço, as dificuldades para denunciar persistem.

“Já ouvi vários relatos em que a mulher ouve, na própria Delegacia da Mulher, ‘Mas tem certeza que você quer fazer a denúncia, você vai prejudicar muito ele’, e ela acaba desistindo. Fazendo um paralelo, a criminalização (da LGBTfobia) é um avanço, dá a ideia de que a pessoa pode registrar uma ocorrência de um crime, mas o difícil é a pessoa chegar a fazer a denúncia”, pondera.

Gallo estuda violência contra as mulheres desde 1998, no final de sua graduação. Como professor do Departamento de Psicologia da UEL já orientou dois trabalhos focados na violência contra LGBTs – um voltado para gays e lésbicas e outro para transexuais. Atualmente, orienta um terceiro sobre agressões contra bissexuais.

“Violência física e psicológica são muito comuns e a gente identificou que o local mais perigoso para um gay ou uma lésbica é a própria casa, depois a escola”, conta. Em um dos casos apurados para o trabalho do orientando de Gallo uma lésbica relatou as mais variadas violências praticadas pelos próprios pais, incluindo cárcere privado. Em relação aos transexuais, a realidade é ainda mais dura e o afastamento da família mais recorrente.

“E eles não procuram ajuda. Alguns nem sabem a quem recorrer e até dizem ‘se eu procurar a polícia vão rir de mim; se eu contar para alguém vão dizer que é assim mesmo, não tem o que fazer”, relata.

Assista entrevista em vídeo

Políticas públicas

Gallo acompanha a evolução das campanhas nacionais de enfrentamento à violência contra as mulheres desde o início, cerca de duas décadas atrás. O mesmo entendimento em relação aos LGBTs é bem mais recente, o que o leva a acreditar em um caminho semelhante de conscientização.

“A partir do momento que as pessoas começam a entender que é uma violência começam a se criar politicas de acolhimento”, afirma. Apesar de termos evoluído muito no entendimento e respeito às questões de gênero, alguns movimentos no Legislativo nacional apontam tentativas de regredir nessas conquistas.

“Há campanhas, projetos, de tentar voltar para o passado, de internação compulsória, de retirar do convívio social aquelas pessoas que a sociedade não quer olhar”, alerta Gallo. “O homossexual não pode viver uma vida heterossexual?”- questiona – “Pode, de fachada, de mentira. Existem várias pessoas, com medo da sociedade, que fazem de conta que têm uma vida heterossexual. Esta pessoa pode procurar ajuda psicológica, mas não no sentido de mudar sua orientação para hetero, mas para se aceitar, aprender a lidar com o preconceito”, explica o psicólogo.

Alex Gallo: duas décadas de pesquisa em violência de gênero

“Cura gay”

Em 2017, atendendo ação popular impetrada por uma psicóloga, um juiz de Brasília suspendeu os efeitos da Resolução 1/1990, do Conselho Federal de Psicologia, que impedia a atuação dos psicólogos na reversão sexual de um indivíduo, a popular “cura gay”. Esta decisão só foi revertida em abril deste ano, quando o STF decidiu que apenas a Suprema Corte poderia julgar o caso e a resolução voltou a valer.

Para Gallo, o fato de ainda termos questionamentos neste sentido mostra uma tentativa de regressão nos direitos da comunidade LGBT, aprofundada com a eleição de um governo conservador.

O psicólogo alerta, no entanto, que todos os procedimentos de “cura” realizados no passado não funcionaram. “Puniam tanto a pessoa para ela criar um papel de que tinha se curado que as pessoas acreditavam que era possível. Mas a violência que aquela pessoa sofreu para fazer aquele papel era tão grande que muitos se suicidaram”, alerta.

Diante de sua experiência pessoal de autoaceitação da homossexualidade, Gallo diz que é normal querer se “curar”, afinal, ninguém quer sofrer violência. Ser aceito é muito mais confortável. “Só que não tem como curar algo que não vai mudar. A autoaceitação se dá para cada individuo em uma época da vida, vai depender muito das condições de acolhimento que aquela pessoa teve”, explica.

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