Na falta de argumentos, quebre o vidro e despeje ofensas

Por Paula Vicente e Rafael Colli, advogados criminalistas e membros da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina

Há uma evolução natural da consciência humana, do racional das pessoas. Da doce dependência da infância, ao turbilhão da adolescência, ao florescer da juventude. Uma linha tortuosa, porém virada para a evolução pessoal, na qual o ser se transforma, efetivamente, em humano, com racionalidade, compaixão, empatia. Apesar da beleza desta alegoria, o meio do caminho é um verdadeiro inferno: a passagem da infância para a adolescência. Caracterizada pela figura da 5ª série – à nossa época os anos escolares eram contados assim -, onde pequenos humanos com inteligência e percepção já formados, porém com o caráter ainda em construção, disputam entre si os holofotes, por meio de ofensas, atos agressivos e, não raramente, violência física.

Sim, amigos, a quinta série é um antro de pequenos psicopatas, com tendência à racionalização e à humanização – a passos lentos, entretanto.

Esta fase passa, contudo. Certo? Bom, para alguns, não. Algumas pessoas finalizam ali sua caminhada rumo à evolução do ser ao ser humano. Assim ocorreu com o mandatário da República. Jair Bolsonaro, 38º Presidente da República Federativa do Brasil, é, ainda, um estudante da 5ª série, com parcial formação da razão, mas que ainda não tem condições cognoscentes de argumentar ou expor ideias, mas o tem para atacar, ferozmente, qualquer um que discorde dele minimamente, despejando-lhe, ao berros, impropérios e ofensas, apenas e tão somente para “ganhar a discussão” e conquistar seu lugar no centro da classe.

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Sem certezas sobre o futuro, famílias despejadas de fazenda em Lerroville iniciam reconstrução de barracos

Cerca de 500 pessoas do acampamento Quilombo de Palmares estão abrigadas no Centro Social do assentamento Eli Vive e precisam de doações

Cecília França – Rede Lume de Jornalistas

*Atualizada em 02/08 para inclusão da nota da CNBB

As últimas dez famílias que ocupavam uma propriedade em Lerroville, distrito rural de Londrina, deixaram hoje as terras, após ação de reintegração de posse executada pela Polícia Militar na última terça-feira (30). A fazenda, pertencente à família do ex-deputado José Janene, já falecido, estava ocupada desde 2015 por 166 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Surpreendidas pela ação de despejo, as famílias foram abrigadas pela coordenação do movimento no Centro Social do assentamento Eli Vive, também em Lerroville, e precisam de doações de colchões, roupas e alimentos. De acordo com José Damaceno, coordenador do MST, existia uma ação de reintegração de posse tramitando desde 2015, mas o movimento foi surpreendido pela execução.

“Tudo agora é imprevisível. Vamos conversando à medida que as famílias se alojarem”, explica. Sandra Aparecida Costa Ferrer, coordenadora politica do assentamento, contou à Lume que as famílias estão montando seus barracos com bastante dificuldade, pois “na correria do despejo, com prazo curto imposto pelas autoridades, ficou muita coisa para trás”.

“Muitos não conseguiram tirar seus barracos para reaproveitar…as lonas, uma grande parte danificada…enfim…começar do zero. Perderam suas roças, que estavam todas plantadas, não tiveram tempo de colher seus alimentos. Os animais se extraviaram na correria, um cenário desolador”, descreve.

Parte dos pertences das famílias ao relento. Fotos: coordenação do MST

Parte dos pertences que os moradores conseguiram manter está abrigado no Centro Social do assentamento, porém, não há espaço para tudo e cadeiras, camas, Sobre o futuro, Sandra diz que será “construído dia a dia”. Segundo ela, a solidariedade de moradores da zona urbana tem surpreendido.

Ato de apoio

Neste sábado, 3, será realizado um ato inter-religioso em apoio aos despejados da ocupação Quilombo de Palmares. Será a partir das 1oh, no Calçadão de Londrina, em frente ao Banco do Brasil. Doações de alimentos e roupas estarão sendo coletadas na oportunidade.

Bispos se manifestam

Bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Regional Sul 2 – que abrange o Paraná – divulgaram nesta sexta-feira (2) uma nota de repúdio à reintegração de posse ocorrida em Lerroville.

Na nota, os bispos afirmam esperar a reversão de todas as desapropriações realizadas no Estado, “tendo em vista que essas famílias estão há muitos anos trabalhando, produzindo agricultura de subsistência, educando os filhos e construindo comunidade em áreas pertencentes a grandes devedores da União ou do Estado que eram tidas, anteriormente, como improdutivas”.

Outras três reintegração de posse já ocorreram no Estado este ano, segundo o MST.

Para a CNBB, é urgente que os órgãos responsáveis, em especial o INCRA, possam promover a reforma agrária “como meio de paz no campo e promoção da agricultura familiar de subsistência”. Na avaliação dos bispos, o momento de polarização e intolerância vivido no Brasil “exige diálogo até a exaustão, na busca de soluções pacíficas, seja condição irrenunciável”.

Assinam a nota Dom Geremias Steinmetz, Arcebispo de Londrina; Padre Valdecir Badzinski, Secretário Executivo da CNBB Regional Sul2; Dom Amilton Manoel da Silva, bispo auxiliar de Curitiba; e Dom José Antônio Peruzzo, Arcebispo de Curitiba.