“Eu posso sair de casa de mãos dadas com alguém, mas na rua tenho que soltar”, diz Luana Cossentini sobre LGBTfobia

Idealizadora da Parada LGBT de Londrina comemora a criminalização pelo STF, mas teme retrocesso social

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Quando cursava o mestrado em Londrina, a biomédica Luana Aparecida Cossentini, 27, procurou o serviço de saúde da universidade para uma consulta de rotina com um ginecologista. Ao entrar no consultório, relatou ao médico que se relacionava com mulheres. Foi o suficiente para que a consulta terminasse.

“Ele ficou comigo duas horas tentando mudar minha orientação sexual e, na época, eu só achei que ele era louco. Hoje olho para trás e penso quanto coisa eu poderia ter feito e não fiz por não saber que era crime ou não pensar em como poderia me influenciar no futuro”, contou ela à Lume, na segunda entrevista do nosso Especial LGBTfobia.

Luana só teve o pleno entendimento sobre LGBTfobia quando conheceu a população LGBT militante. Aconteceu durante a organização da primeira Parada LGBT de Londrina, cerca de três anos atrás. O evento, organizado por ela e outros representantes do movimento, atraiu mais de oito mil pessoas na última edição, em 2018.

Luana se afastou da comissão organizadora do evento por motivos profissionais, mas continua na militância, agora partidária, como integrante da Secretaria da Diversidade do PDT. Assim, entende perfeitamente a importância da criminalização da LGBTfobia, garantida pelo Supremo Tribunal Federal.

“É importante, é o que a gente busca, mas não é lei, vai funcionar até que alguém derrube”, pondera. Também existe a possibilidade de que o Congresso Nacional aprove como lei, o que daria mais segurança aos LGBTs.

“Antes de eu entrar na parada eu nunca tinha visto esta dimensão (do preconceito). Vivia a minha vida e não tinha contato com pessoas que sofriam mesmo, mais diretamente. Eu mesma sofria e não sabia”, relembra. Como lésbica, Luana sabe que não está no grupo atingido mais fortemente pela LGBTfobia e tem consciência de que pessoas trans, e até mesmo homens gays, sofrem mais.

Luana (a esq.) com outros integrantes da organização da Parada Cultural LGBT de Londrina. Foto: Facebook do evento

“Eu comecei a ver outras pessoas, inclusive, que não tinham a mesma estrutura psicológica e de compreensão daquilo. Como eu sou da área da saúde eu sabia que muita coisa que aquele médico tinha dito era bobagem, mas e quem não sabe? Pensa, ‘eu sou um erro’. Isso afeta psicologicamente a pessoa”.

Civilidade mascarada

Para Luana, o Brasil vivia uma “civilidade mascarada” (diz, usando um termo cunhado pela cineasta Petra Costa no documentário “Democracia em Vertigem”), do tipo “Eu apoio os gays, desde que fiquem longe de mim”. Essas máscaras caíram nos últimos tempos, com a eleição de um presidente claramente homofóbico.

“Ontem (cerca de um mês atrás) eu fui em um bar frequentado por muitas pessoas alternativas e meia-noite e meia passou um carro com um monte de rapazes. Um deles saiu na janela fazendo ‘arminha’ com a mão e gritando ‘Bolsonaro’. Imagina se um cara desses passa com uma arma de verdade? Eu vim embora, fiquei com medo”, conta.

Para ela, o retrocesso “está aí” e a luta do movimento se torna ainda mais necessária para garantir direitos já conquistados.

Assista o vídeo da entrevista

Ainda que não esteja no grupo mais visado dentre os LGBTs, Luana convive com privações. “Eu posso sair de casa de mãos dadas com alguém, mas chegou na rua tenho que tirar. À noite, em alguns lugares, é melhor até andar meio afastado. E com menino é ainda pior, porque os homens não aceitam, batem”, relata.

Anonimato

Filha de família conservadora, Luana descobriu-se lésbica na adolescência. Os pais, quando souberam, a levaram a “médico, psicólogo, padre, pastor, benzedeira” – conforme relata -, com a intenção de “curá-la”. Ela própria achava errada sua orientação sexual por conta da criação e da ausência de contato com o universo gay.

Atualmente, o tema é velado entre a família e ela se sente confortável com a situação. Luana diz que muitos LGBTs preferem manter o anonimato para evitar confrontos; outros, por não se aceitarem. “A pessoa tem que se aceitar primeiro, e muitos não se aceitam”, lamenta.

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