Sem dinheiro, sem trabalho e sem os filhos

Vivendo de doações, casal luta para reaver na Justiça a guarda dos filhos

Cecília França e Nelson Bortolin

*Atualizada em 02 de julho para inclusão de explicação do Conselho Tutelar

Quando saiu da sala de audiências, Sueli Santos da Silva, 35, caiu em um choro rápido e nervoso. Era a primeira vez que ela encarava um juiz e um promotor. O clima formal de depoimento, na segunda-feira, 24 de junho, intimidou a manicure em sua primeira tentativa de reaver a guarda dos filhos ao lado do companheiro, o pedreiro Wadislau César Teixeira Dória, 55. As crianças – um menino de 11 anos e uma menina de 2 – foram retiradas dos pais três dias após a chegada deles a Londrina.

A história de Sueli e Wadislau na cidade começou no último dia 15 de maio. Passaram a primeira noite na própria rodoviária, junto com outras pessoas em situação de rua, após chegarem de Balneário Camboriú (SC). No dia seguinte, tomaram o café da manhã oferecido diariamente no local por um voluntário e então foram abordados pela assistência social.

“Levaram a gente para o Centro Pop, mas disseram que as crianças não poderiam ficar”, contou a mulher à reportagem da Lume, dizendo-se enganada. “Falaram que tinham de levar os meninos para outro abrigo. Eu entendi que era só por um tempo. Não disseram que eles estavam sendo tirados de mim”, relata Sueli, visivelmente deprimida.

No processo do Ministério Público, o conselho tutelar relata maus tratos às crianças e diz que os pais foram flagrados usando drogas na frente deles. A Lume conversou com o conselheiro responsável pelo caso, do Conselho Tutelar Norte B, e ele afirma que as informações foram passadas pelos outros ocupantes do Centro Pop e atestadas pela equipe do local e por ele, após horas de conversas com o casal e o filho mais velho.

O conselheiro confirma que tinha a intenção de conseguir uma vaga para Sueli no abrigo feminino do município, onde ela poderia ficar com os filhos, mas o Ministério Público acabou sendo acionado quando os menores chegaram ao Lar Anália Franco, transformando o caso em um processo. Ele também diz que o fato de o casal não ter apresentado parentes que pudessem cuidar dos menores na ocasião levou ao acolhimento.

Mas Sueli e Wadislau contestam as acusações. “Se eles dizem que a gente bate nas crianças, por que não fizeram exame neles pra provar? Uma única vez que eu dei um tapa no meu moleque, eu chorei o dia todo”, diz Sueli. Wadislau corrobora: “Eu falo que, às vezes, os meninos precisam de corretivo, mas ela é mole, não bate mesmo.”

Em relação às drogas, eles garantem já estarem “limpos” há cinco meses e negam ter usado qualquer substância na frente dos filhos.

Outro ponto citado no processo e contestado por Sueli é o de que ela vive na rua desde os 12 anos. Esta foi a idade com que ela perdeu a mãe (o pai já era falecido) e passou a morar na casa de uma tia, em Apucarana (60 km de Londrina). Nesta época, nasceram os laços com a prima-irmã Patrícia Lúcia dos Santos, 35, que está disposta a ficar com os filhos do casal até que eles se reestruturem.

APOIO

Terminado o prazo que tinham para permanecer na casa de passagem, Sueli e Wadislau conheceram uma ativista social que conseguiu abrigo para ambos em uma ocupação no Santa Joana (Zona Sul de Londrina). A ONG vem auxiliando os dois na construção de uma casa própria no mesmo terreno, arrecadando materiais. Enquanto isso, as crianças estão no Lar Anália Franco e os pais têm direito a uma visita semanal de uma hora.

“Nós só podemos ver as crianças uma vez por semana. Quando chego lá, minha menina está sempre triste. Ela ainda mamava no peito quando foi levada”, lamenta Sueli. “Não temos privacidade com as crianças um minuto. Parece que acham que a gente vai maltratar. É muito ruim”, completa Wadislau.

DESESTRUTURAÇÃO

Nem sempre a vida de Sueli e Wadislau foi precária. Sueli é viúva e recebe uma pensão do falecido marido, além de trabalhar como manicure; ele já trabalhou muitos anos com carteira assinada como pedreiro. No entanto, a depressão da mulher os levou à bancarrota – contam. Nem mesmo a pensão ela recebe mais, por estar comprometida com empréstimos.

Vieram o desemprego, a necessidade de venda da casa própria e de mudança para uma cidade com menor custo de vida. O casal tem consciência de que a Justiça dificilmente lhes devolverá a guarda dos filhos na atual conjuntura, mas espera que eles aceitem a proposta de deixá-los com Patrícia.

A prima participou da audiência da última segunda e se dispôs a abrigar os sobrinhos, mesmo tendo quatro filhos. Cuidadora de idosos, Patrícia conta que os dois mais velhos também trabalham e o marido – atualmente trabalhando em Santa Catarina – contribui com parte da renda da casa.

A próxima audiência do caso foi marcada para o dia 20 de agosto e, até lá, Sueli e Wadislau esperam ter conseguido melhorar a situação de vida. “Tudo que eu faço, todo dia, é pensando nos meus filhos”, garante o pai.

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