‘Fake News’: pesquisadoras apontam formas de combater processo de desinformação

Em evento do Pint Of Science, doutoras da Universidade Estadual de Londrina falam sobre notícias falsas e suas consequências sociais

Cecília França
Lume Rede de Jornalistas

Quem atua no jornalismo ou no direito certamente conhece o Caso Escola Base, ocorrido na década de 1990, em São Paulo. Denúncias de abuso sexual praticados contra crianças de quatro anos nesta escola infantil foram amplamente divulgadas pela imprensa, sem qualquer prova, inflamando a opinião pública. Na época, notícias falsas sobre o suposto crime estampavam capas de jornais diariamente e destruíram a vida de ao menos seis acusados.

Este grande exemplo de fake news da era analógica poderia ter causado estrago ainda maior na era digital em que vivemos. Se antes o receptor da informação era passivo – ou seja, apenas recebia conteúdo dos meios de comunicação tradicionais, como televisão e rádio – com a internet ele se torna ativo e passa a replicar aquilo que lhe interessa. O problema é que nem sempre a razão determina estas escolhas, e sim, a emoção, que tende a prevalecer sobre a lógica.

Há, então, solução para as fake news? Esta foi a pergunta a que procuraram responder Ana Cristina de Albuquerque, doutora em Ciência da Informação, e Rose Mara Vidal de Souza, doutora em Comunicação, ontem, em evento do Pint Of Science em Londrina. A 4ª edição do festival internacional de divulgação científica acontece até hoje em 24 países do mundo e em 85 cidades brasileiras, simultaneamente. Aqui ele é realizado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) em parceria com bares e restaurantes.

Para Vidal de Souza, fake news são o mal deste início de século, já tendo se tornado, inclusive, questão de segurança nacional. Elas são um componente do que chamamos de pós-verdade, um fenômeno de desinformação que mexe com o lado emocional das pessoas. “Quando eu compartilho uma notícia falsa eu insiro a minha pós-verdade”, explica a doutora.

Rose Mara Vidal de Souza durante o evento

Albuquerque reforça que a desinformação tem um caráter intencionalmente prejudicial, contrário ao significado valoroso da informação, definida como: “Um conjunto de dados organizados com o objetivo de reduzir a incerteza ou incrementar o conhecimento sobre algo que represente uma modificação (quantitativa ou qualitativa) no conhecimento humano”.

A pesquisadora destaca que estamos ávidos por informação atualmente, mas não temos pensado sobre ela. “Como um ‘zumbi’, esta figura obcecada por algo, estamos contribuindo para a desinformação na web, principalmente. Este é um comportamento totalmente nocivo à nossa sociedade”, condena.

Com a polarização reforçada pelas notícias falsas de forte apelo emocional, terminamos por nos fechar em “bolhas” compostas apenas por pessoas que compartilham nossas emoções e crenças pessoais – processo fortalecido pelos algoritmos das redes sociais. Por isso, as fake news devem ser tratadas como um problema social.

QUEM COMPARTILHA

  • Robôs
  • Trolls (pessoas que compartilham para ver a polêmica, sabendo que se trata de uma mentira)
  • Pessoas com mais de 40 anos, em sua maioria
  • Menor índice entre adolescentes

Fonte: Ana Cristina de Albuquerque e Rose Vidal

Dentre os que mais compartilham fake news estão pessoas com mais de 40 anos, apontam pesquisas citadas por Vidal de Souza. A explicação está na atual onda mundial de conservadorismo.

“Tudo é muito fluido hoje em dia, é o mundo do incerto. Isto causa saudosismo, a pessoa quer aquele mundo (antigo) de volta”, explica.

Ana Cristina de Albuquerque fala no Pint Of Science

O que mudou

As doutoras destacam que desinformação, boatos e mentiras existem há tempos, “mas o que Silverman (Craig Silverman, jornalista canadense considerado um expert em no tema) e outros descobriram foi uma combinação perfeita entre algoritmos das redes sociais, sistemas de publicidade, pessoas dispostas a inventar conteúdo para ganhar dinheiro fácil e uma eleição polêmica no país mais poderoso do mundo (os Estados Unidos)”.

As eleições norte-americanas de 2016 abriram uma nova perspectiva sobre o uso das fake news, algo que foi parcialmente replicado no último pleito no Brasil.

O que proporciona

Albuquerque aponta alguns fatores que proporcionam a proliferação das notícias falsas, dentre eles, o enfraquecimento e descrédito das instituições. “Ou seja, por que eu vou acreditar na política se todo político é corrupto; ou, por que eu vou apoiar as universidades se elas só gastam dinheiro à toa”, exemplifica.

A manipulação dos discursos por parte da mídia tradicional também contribui para este processo de desinformação. Quando um telejornal noticia algo sem contexto ou não dá continuidade a determinada notícia está desinformando ou ao invés de cumprir seu papel informativo.

“Também há a desvalorização da nossa história científica. Com isso, você dá crédito para a interpretação, desprezando a ciência, os fatos, os métodos”, acrescenta. Além disso, há o que Albuquerque chama de “salvacionismo”, uma busca por heróis, que acontece mundialmente.

“Nossos pré-conceitos contribuem muito para as informações que consumimos. Ficamos nas bolhas informativas. Informações que te não agradam vão ser rechaçadas e isto não tem a ver com nível educacional”, conclui.

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Fonte: Rose Vidal Comunica

Como combater

As duas pesquisadoras apontam a educação como necessária para o combate às fake news. “Também precisamos retomar o senso crítico e a ética como princípio de todo ser humano”, defende Albuquerque. No que tange à área da comunicação, a pesquisadora aposta no resgate da comunicação popular e comunitária como forma de estar mais próximo e esclarecer as pessoas.

Para Vidal de Souza, as redes sociais podem ser aliadas neste processo educacional. Ela mesma produz vídeos em seu Instagram com pesquisadores de todo o país como forma de aproximá-los da sociedade, trazendo informações fidedignas e de qualidade. Para ela, as mídias tradicionais não têm a contribuir para melhorar este cenário.

“As mídias alternativas eu penso que podem assumir este papel de credibilidade (deixado pelas tradicionais)”, finaliza.

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