Monja Coen: “Têm sido regadas as sementes da raiva, da intolerância, do desrespeito”

Em entrevista à Lume, monja fala sobre como agir para criar uma cultura de paz em uma sociedade na qual a violência antes “escondida” ganha voz

Cecília França e Nelson Bortolin
Lume Rede de Jornalistas

A defesa dos direitos humanos é algo intrínseco ao budismo. A filosofia oriental entende que o direito à vida e ao acesso aos meios básicos de sobrevivência está intimamente ligado à construção de uma cultura de paz. Seria justamente a privação, violação ou ausência destes direitos básicos a causa de guerras e levantes violentos mundo afora.

Em passagem recente por Londrina, a Monja Coen – maior expoente do budismo no Brasil atualmente – tratou do tema. Na opinião da monja, preconceitos e desrespeitos não podem ser tolerados por quem busca construir uma cultura de paz.

“Quando eu vir algum pensamento contrário à condição sexual do outro, ou preconceituoso contra pessoas com necessidades especiais, eu preciso me levantar e dizer ‘Não admito isso’. Isto também é construir uma cultura de paz”, declarou na oportunidade.

Monja Coen durante palestra em Londrina

Dias depois, a monja respondeu, por e-mail, questionamentos da Lume sobre direitos humanos e, mais uma vez, defendeu a dignidade de todos os seres humanos. Para ela, o atual momento que vivemos nos mostra o quanto a violência estava “escondida” em nossa sociedade e deve nos levar a pensar em como lidar com ela. “Como lidar com a violência sem nos tornarmos violentos”, propõe: “Treinamento de sabedoria e compaixão”.

A monja ainda aponta a educação como um dos instrumentos fundamentais para benefício de todos os seres humanos. “A educação que liberta e convida ao pensar pode ser instrumento importante para que possamos fazer escolhas que sejam benéficas ao maior número de seres“. E completa: “Podemos nos treinar, nos educar, nos questionar e através da Filosofia, da Sociologia, da Pedagogia, da Psicologia, das Ciências Exatas, da Medicina, da tecnologia, da Inteligência Artificial poderá haver expansão de consciência”.

Leia entrevista completa abaixo.

Lume: A senhora acredita que os direitos humanos estão sob ameaça no Brasil? Por que?
Monja Coen: É importante pensar no direito à vida de todos os seres. Espero que possamos manter os Direitos Humanos com dignidade neste país e no mundo.

L: A senhora publicou um livro recente em que aborda a Verdade (Verdade? Porque nem tudo o que ouvimos ou falamos é verdadeiro, 2019). Vivemos um tempo em que o conceito de verdade tem sido muito questionado, sendo sobreposto, em muitos casos, por convicções pessoais. A verdade pode ser relativa?
MC: Verdade? Será que refletimos sobre o que falamos e pensamos? Ou será que apenas repetimos jargões sem as analisar. O propósito do livro é provocar a reflexão.

L: A violência parece ter ganhado mais “voz” na nossa sociedade recentemente. Preconceitos antes velados contra as chamadas minorias têm sido explicitados e as reações contrárias são taxadas de “mimimi”. Estamos regredindo como seres humanos capazes de viver com respeito em sociedade?
MC: Tem sido regadas as sementes da raiva, da intolerância, do desrespeito. Somos seres sensíveis e as emoções prejudiciais são contagiantes. Talvez seja um grande momento de treinamento para respondermos às provocações do mundo invés de apenas reagir.

Isto exige treinamento. Não é regredir. É oportunidade de observar o quanto estava escondido e como lidar com a violência sem nos tornarmos violentas. Treinamento de Sabedoria e Compaixão.

L: Como lidar com pessoas próximas (amigos e familiares) que defendem temas controversos como redução da maioridade penal, ditadura militar e outras ideias autoritárias?
MC: Será que devemos odiar quem odeia? Será que temos que discriminar quem discrimina? Será que precisamos brigar com quem provoca brigas? Será que devemos nos rebaixar ou abusar de quem nos rebaixa e abusa? Conviver com pessoas que nos provocam por defender pontos de vista contrários aos nossos é uma arte. Invés de romper, brigar, gritar, odiar, podemos encontrar um caminho de diálogo, usar meios expedientes para expor seus pontos de vista sem ofender.
Compreender que quem agride, discrimina, prefere governos autoritários foi criado, educado e é resultado de uma cultura de violência. Como transformar uma cultura de violência em uma cultura de paz? Cada um de nós é co-responsável.

L: Ser bom é uma escolha?
MC: Se neurocientistas afirmam que só temos 5% de livre arbítrio, ou seja, de escolhas, esses 5% são importantes. Grande parte de nossas aparentes escolhas tem a ver com nossa herança genética e outra grande parte com as experiências pelas quais passamos, nossa educação, amigos, grupos sociais e assim por diante. A educação que liberta e convida ao pensar pode ser instrumento importante para que possamos fazer escolhas que sejam benéficas ao maior número de seres. Sair do controle do que Freud chamaria de “ego”- uma identidade separada e carente de atenção, afeto, poder. Quando transcendemos o “eu individual”‘ e nos percebemos “intersendo” com todas as formas de vida, se tivermos sido devidamente sensibilizados pela identificação e compaixão, teremos decisões adequadas para o bem de todos os seres.
Não apenas o bem pessoal, individual, ou de um grupo especial, mas o bem de todos os seres. Treinamento, atenção e votos. Podemos nos treinar, nos educar, nos questionar e através da Filosofia, da Sociologia, da Pedagogia, da Psicologia, das Ciências Exatas, da Medicina, da tecnologia, da Inteligência Artificial poderá haver expansão de consciência.

Entretanto, apenas conhecimento não é suficiente. É preciso desenvolver a sabedoria, ou seja, ações efetivas de transformação baseadas no discernimento correto, na ética para esta nova era.

Qual a sua escolha? Pense nisso: o que está escolhendo neste momento? Brigas, polaridades, insultos, gritos? Ou prefere o encontro, o diálogo, o respeito e a fala amorosa? A escolha de cada pessoa acaba se espalhando e pode ser elemento de transformação de uma cultura de violência para uma cultura de paz.

Acredito que processos meditativos tenham grande importância para transformações sociais, política e econômicas. Não apenas um conhecimento e bem estar pessoais, mas a percepção que somos a vida da Terra e de todos os seres.

Cuidar de todas as formas de vida com dignidade e identificação e respeitar a diversidade humana é uma escolha, que acredito se tornará uma realidade para a maioria dos habitantes do planeta Terra. O DNA humano quer sobreviver e só sobreviverá se cuidar do planeta e de cada célula, cada vida que o compõe.

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